VAI AÍ UMA REFLEXÃO?
Hugo Martins
Dezesseis horas, e eu aqui na minha redinha de corda, armada bem baixinha, quase ao rés do chão. Quando me perguntam por que assim? Medo de quedas. Ponho o dedo no chão, dou um embalo curto e me entrego ao devaneio, à procura de um assunto que valha a pena ser tratado por uma pena leviana, que se entrega ao prazer de escrever por, simples e gratuitamente, escrever. Sem esperar recompensas ou aplausos. Rendo-me ao dolce fa niente de quem já trabalhou além da conta e se regala no prazer de entregar-se ao ler e ao escrever sem nenhum sentimento de culpa. Que faço eu, em plena segunda-feira, a essas horas, olhando o céu azul, límpido,
sem fiapo algum de nuvem, nem mesmo para construir figuras como fazia nos meus tempos idos de menino sonhador e involuntário gestaltista? Dá pra perceber que escrevo um texto. Há pouco tempo fechara o volume de Mitologia Grega, o primeiro de uma série de três, de autoria de Junito de Souza Brandão, publicação da Editora Vozes. É Gaia, é Urano, é Cronos, é Caos, é o Cosmos, os Titãs, os Campos Elísios, é o Érebo, é o Tártaro, é Diké e é Hybris. Parece a escalação de um time de futebol...
É imaginação, é maravilhamento, é o mundo intrepretado por outros signos, saídos do gênio grego, que guardam, em seu ventre, feérica contemporaneidade. Mar imenso e inesgotável de simbologia, cujos signos, símbolos e ícones se prestam para que o homem explique, por eles, o mundo e também o interprete.
Tomemos Diké e Hybris. Vamos à viagem. Quem se aventura a estudar a ciência do Direito voltando-se apenas para a leitura simplista de leis, jurisprudência e doutrina, sem dar crédito a outras matérias como filosofia, sociologia, psicologia, literatura, rótulo de papel higiênico, placas de rua, escatologia, enfim, tudo que lhe caia nas mãos, que se reduz, ao fim e ao cabo, à Filosofia na sua mais ampla acepção, será incluído no rol daqueles que se enquadram numa parêmia de Holbach, que diz:"Quem só estuda direito não sabe direito."
A função-mor, ou a teleologia primeira do Direito, é manter a pacificação da sociedade dos homens no mundo. Quando alguém vai ao Estado-juiz, perseguindo uma pretensão, que julga legítima, contra outra pessoa, está a pedir ao primeiro que restabeleça a ordem natural das coisas, perturbada pelo réu (que está no polo passivo da demanda.) Por intermédio do processo, aquilo que vai à frente por impulsos ou ações de uma parte e outra, alcança-se o desiderato que se tem em mira. O Estado dirá o direito, reorganizando o mundo, sempre à luz do que determina o ordenamento jurídico.
Ora, Diké é o Direito, é a organização, é o cosmos; a Hybris, é o caos, a desordem, a quebra do equilíbrio das coisas no mundo. Aí temos a sabedoria própria dos mitos refletida numa coisa aparentemente sem importância.
Outra reflexão com a mesma luz. A Filosofia diz que o homem é constituído de um Ser e um não-Ser. O primeiro é perfeito, imuatável e eterno; o outro é seu contraponto, dobra-se às matérias tempo e movimento, por isso é imperfeito, efêmero e fugaz. Duas realidades duras para o "caniço pensante".
Vamos a algo aparentemente comezinho... Quando as mulheres enxergam, no espelho, as garatujas e tatuagens que o tempo lhes pespega no corpo (a hybris), tratam de recorrer a todos os meios possíveis para, num jogo de gato-e-rato, fugir à ação deletéria do gato. Entre outros meios, recorrem aos cosméticos (palavra derivada de cosmos) na vã tentativa de reorganizar o irremediável.
Para não ser injusto com as mulheres, tampouco correr o risco de ser taxado de preconceituoso, é de se lembrar que a sociedade do espetáculo, a sociedade das vãs aparências e do "homem unidimensional" também impôs a este a rendição à indústria dos reparos do corpo. Quanto aos da alma, trata-se de "questão prenhe de outras questões"
Eis aí... Os mitologemas muito ajudam nas leituras de mundo, até mesmo quando flagram os homens na constatação irrefutável de que "Vanitas vanitatum et omnia vanitas."
Deo gratias ago.
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