domingo, 13 de novembro de 2016

Minha cara, aí vai outro texto que reedito. Redigi-o no ano de 2014. Minha admiração por Rui Barbosa nasceu quando, ainda criança, minha mãe falou-me sobre ele e sua privilegiada inteligência, que servia de parâmetro no incentivo aos estudos da gurizada daquela época.
Já adulto, lendo a mais completa biografia que conheço sobre Machado de Assis, de lá retirei uma informação de que Rui Barbosa seria homem, cuja vaidade não admitia ser o segundo de todos. O autor da biografia deixa até mesmo transparecer, nas entrelinhas, que Rui cultivaria a pior antivirtude de um homem: o ser invejoso.
O autor da biografia do romancista carioca é o mesmo que deu a público a obra Rui, o Homem e o Mito, em cujas páginas efetivamente se encontra um discurso em que o advogado baiano é escrachado pela pena raivosa e parcial de Raimundo Magalhães Júnior. A leitura de referida obra não me causou mossa. Devia haver nas verrinas cortantes do biógrafo alguma ferida mal-curada ou algum rancor adormecido nos porões de seu subconsciente... São hipóteses plausíveis, deduções de leitor que procura enxergar nas diatribes de Magalhães Júnior algo sem fundamento, vez que Rui era homem respeitado e benquisto por seus pares.
Com efeito, veio em defesa de Rui um advogado, também baiano, de nome Salomão Jorge, que lançou uma réplica enfeixada num grosso volume, cujos capítulos recebem o mesmo título dado por Magalhães Júnior aos de dua obra. Trata-se da obra O Piolho na Asa da Águia, título que encerra uma referência à antonomásia A Águia de Haia, pespegada a Rui Barbosa por sua brilhante ação diplomática nos tribunais daquela cidade, ao mesmo tempo em que ironiza a figura do homem de letras Magalhães Júnior. Para nossa insatisfação não houve uma tréplica em virtude do falecimento deste último. Assim não fosse, a polêmica teria continuado, pois um e outro dos contendores sabiam terçar as armas da linguagem além de demonstrarem ser senhores de incomparável capacidade para costurar argumentos, coisa que delicia o espírito...
Aí a seguir um texto de nossa lavra em que pomos em foco historieta que visa a relevar a inteligência de Rui mesmo em situações comezinhas do cotidiano.
Creio eu ter sido Rui Barbosa um homem bom em toda a extensão da palavra. Guia-me nesse juízo a intuição.
Voilá, minha fictícia amiga mais um dos nossos textões, terror dos frequentadores dessas redes sociais, que também baixam o cachaço para os tacões autoritários das pressa e azáfama dos nossos dias vãos.
Com o apreço de seu fiel servo,
Hugo Martins

CONSULTE ADVOGADO
                                                                    Hugo Martins
Sobre ser vernaculista de nomeada, orador de largos predicados e político atilado, o baiano Ruy Barbosa também se destacou na arte de advogar. Criticou duramente a redação do Código Civil de 1916, do que resultou uma polêmica com o filólogo e gramático baiano Ernesto Carneiro Ribeiro, de cujos embates surgiram miríades de páginas, de um lado e de outro, redigidas de mais fino lavor linguístico e literário. Orador exuberante, além de exímio redator de cartas, discursos e conferências, ficou conhecido no Brasil pela famosa Oração aos Moços, de que encontramos, vez por outra, trechos transcritos em redes sociais e em salas de escritórios. Candidatou-se duas vezes à presidência da República e participou ativamente das contendas diplomáticas do Brasil com outros países, questões em que se discutiam problemas atinentes ao nosso território. Aqui, colocou ele seus conhecimentos de direito internacional público a serviço dos brasileiros, auxiliando, nos trabalhos, o Barão do Rio Branco.
Ruy Barbosa mantinha seu escritório advocatício em sua própria casa. Conta-se, a título de ilustração, para fazer ver a habilidade do baiano com a coisa jurídica, que, certa feita, um vizinho entrou-lhe no escritório, a fim de fazer-lhe uma consulta. Formou o tal vizinho uma arapuca. Disse ao causídico o vizinho que um determinado cachorro entrara em sua casa e, alçando-se na mesa onde se encontravam cinco quilos de carne, babujou esta, comeu-lhe uma parte, acabando por inutilizá-la inteiramente. Depois da narração, o bom vizinho perguntou a Ruy se ele, vizinho, fazia jus a uma indenização a ser paga pelo dono do cão. Houve um dano, logo deve ser ressarcido pelo dono do animal, disse-lhe o paciente advogado. O vizinho aproveitou a deixa e disse: “Dr. Ruy, o cão pertence ao senhor. Desse modo o senhor me deve (trazendo o valor monetário para os dias de hoje)  oitenta reais”. Ruy aquiesceu, abriu a gaveta e de lá retirou quatro notas de vinte reais. O vizinho recebeu a quantia, agradeceu, saiu e, da porta, disse: muito obrigado, doutor. Quando ia saindo, Ruy Barbosa o chamou e disse que a consulta prestada iria custar ao bom vizinho apenas trezentos reais...
Lembrei-me do “obrigado” da formiguinha da anedota, bem como da parêmia popular que diz: “fulano” foi buscar lã e saiu tosquiado.
“Honorário não é gorjeta”. Já li isso no vidro de carros, certamente de advogados...

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