sábado, 12 de novembro de 2016

Minha cara amiga, se há na música popular brasileira quem conhece a fundo os segredos e meandros da língua portuguesa para expressar significações que extrapolam o grau zero da linguagem, esse é, sem discussão, o senhor Chico Buarque de Holanda. Modéstia à parte, conheço grande parte de suas composições, verdadeiras joias raras, nas quais já mergulhei com zeloso cuidado a fim de flagrar em alguma delas algum laivo de mediocridade. Reconheço que fui infeliz (e feliz) na empreitada. Tudo é beleza, tudo é poesia, tudo é simplicidade e, em alguns momentos, o regional atinge as raias da universalidade. A temática é ampla, que o diga o crítico Tárik de Souza, que teve a pachorra de ir fundo na obra geral do criador de Carolina para, ao fim recortá-la, e nela encontrar cinco focos diversos da poética de Chico: o trovadorismo das cantigas de amor; o samba com foros da malandragem carioca; o cronista observador de costumes e comportamentos; o político, que põe em relevo "páginas cruéis de nossa História"; e, por fim, o amante, que, sem escrúpulos e com afeto, desnuda alma e coração, abrindo-os em preito de gratidão e louvor à mulher amada.
Para os amantes da boa música, rimada com letra de superior qualidade, poucos compositores ombreiam com Chico Buarque, na arte e no tratamento sensível no uso estilístico da língua portuguesa.
Suas composições podem figurar em qualquer antologia poética da criação literária brasileira, sem que se lhe faça qualquer concessão ou favor... É escritor de mão cheia...
Segue a título de ilustração a análise, ainda que perfunctória, de um trecho de uma letra em que se pode pescar a universalidade da dor em dado contexto político, além de bela oferenda solidária de quem lê, sente e compreende o sofrimento de muitos que não conseguem entendê-lo e explicá-lo. O poeta filtra tudo isso e faz o que faz: a poesia, a verdade transfigurada nas possibilidades expressivas ínsitas nas potencialidades do idioma.
Voilá !!!
LEITURAS E LEITURAS...
Hugo Martins
Um gramático tradicional, aferrado aos conceitos/preceitos da Gramática Normativa, ao ler os três primeiros versos da letra da canção Roda-viva, de Chico Buarque de Holanda, diria que o compositor teria incorrido num erro.... Transcrevamos os versos: “Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente...” Estar numa roda-viva é estar entregue ao ramerrão, ao caos, ao lufa-lufa do dia a dia. A partir daí, procedendo-se à leitura do texto, estando o leitor desprovido de qualquer preconceito em relação aos “erros” que porventura nele possamos encontrar, ver-se-á que o gramático “pisa na bola” por se esquecer da existência de um setor dos estudos linguísticos que prioriza a expressividade em detrimento da correção. Isso é matéria da Estilística, parte dos estudos linguísticos voltados para a expressividade/afetividade da linguagem.
O gramático dirá que o compositor erra ao empregar o verbo “ter” no lugar de “haver”. Se este pertence, no caso, à norma padrão; o primeiro, sendo do linguajar coloquial, denuncia que o compositor se irmana com o sofrimento de sua gente no corre-corre do cotidiano. A opção pelo verbo “ter” é intencional. Em seguida, Chico Buarque usa a palavra “gente” duas vezes. Essa palavra merece mais de uma leitura: o compositor se refere a ele mesmo, usando-a como espécie de pronome pessoal, ou se refere às pessoas de modo geral com quem ele se irmana, comungando dores, desesperos e sofrimentos e tudo o que dimana da barafunda dos dias vãos da vida das gentes...
Pois bem: os chamados “erros” e “desvios” visam ao alcance de maior expressividade no dizer. Por isso são comuns em textos literários ou naqueles em que há uma predominância da função poética da linguagem. Metaforizar: eis a questão. Não se duvide: entre incorrer num erro para alcançar maior expressividade ou submeter-se às normas gramaticais dos acertos, qualquer escritor de bom senso preferirá a primeira alternativa.
Bom continuar a leitura do restante do texto. A nós nos bastam os versos em análise...

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