Minha cara amiga, se há na música popular brasileira quem conhece a fundo os segredos e meandros da língua portuguesa para expressar significações que extrapolam o grau zero da linguagem, esse é, sem discussão, o senhor Chico Buarque de Holanda. Modéstia à parte, conheço grande parte de suas composições, verdadeiras joias raras, nas quais já mergulhei com zeloso cuidado a fim de flagrar em alguma delas algum laivo de mediocridade. Reconheço que fui infeliz (e feliz) na empreitada. Tudo é beleza, tudo é poesia, tudo é simplicidade e, em alguns momentos, o regional atinge as raias da universalidade. A temática é ampla, que o diga o crítico Tárik de Souza, que teve a pachorra de ir fundo na obra geral do criador de Carolina para, ao fim recortá-la, e nela encontrar cinco focos diversos da poética de Chico: o trovadorismo das cantigas de amor; o samba com foros da malandragem carioca; o cronista observador de costumes e comportamentos; o político, que põe em relevo "páginas cruéis de nossa História"; e, por fim, o amante, que, sem escrúpulos e com afeto, desnuda alma e coração, abrindo-os em preito de gratidão e louvor à mulher amada.
Para os amantes da boa música, rimada com letra de superior qualidade, poucos compositores ombreiam com Chico Buarque, na arte e no tratamento sensível no uso estilístico da língua portuguesa.
Suas composições podem figurar em qualquer antologia poética da criação literária brasileira, sem que se lhe faça qualquer concessão ou favor... É escritor de mão cheia...
Segue a título de ilustração a análise, ainda que perfunctória, de um trecho de uma letra em que se pode pescar a universalidade da dor em dado contexto político, além de bela oferenda solidária de quem lê, sente e compreende o sofrimento de muitos que não conseguem entendê-lo e explicá-lo. O poeta filtra tudo isso e faz o que faz: a poesia, a verdade transfigurada nas possibilidades expressivas ínsitas nas potencialidades do idioma.
Voilá !!!
Para os amantes da boa música, rimada com letra de superior qualidade, poucos compositores ombreiam com Chico Buarque, na arte e no tratamento sensível no uso estilístico da língua portuguesa.
Suas composições podem figurar em qualquer antologia poética da criação literária brasileira, sem que se lhe faça qualquer concessão ou favor... É escritor de mão cheia...
Segue a título de ilustração a análise, ainda que perfunctória, de um trecho de uma letra em que se pode pescar a universalidade da dor em dado contexto político, além de bela oferenda solidária de quem lê, sente e compreende o sofrimento de muitos que não conseguem entendê-lo e explicá-lo. O poeta filtra tudo isso e faz o que faz: a poesia, a verdade transfigurada nas possibilidades expressivas ínsitas nas potencialidades do idioma.
Voilá !!!
LEITURAS E LEITURAS...
Hugo Martins
Um gramático tradicional, aferrado aos conceitos/preceitos da Gramática Normativa, ao ler os três primeiros versos da letra da canção Roda-viva, de Chico Buarque de Holanda, diria que o compositor teria incorrido num erro.... Transcrevamos os versos: “Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente...” Estar numa roda-viva é estar entregue ao ramerrão, ao caos, ao lufa-lufa do dia a dia. A partir daí, procedendo-se à leitura do texto, estando o leitor desprovido de qualquer preconceito em relação aos “erros” que porventura nele possamos encontrar, ver-se-á que o gramático “pisa na bola” por se esquecer da existência de um setor dos estudos linguísticos que prioriza a expressividade em detrimento da correção. Isso é matéria da Estilística, parte dos estudos linguísticos voltados para a expressividade/afetividade da linguagem.
O gramático dirá que o compositor erra ao empregar o verbo “ter” no lugar de “haver”. Se este pertence, no caso, à norma padrão; o primeiro, sendo do linguajar coloquial, denuncia que o compositor se irmana com o sofrimento de sua gente no corre-corre do cotidiano. A opção pelo verbo “ter” é intencional. Em seguida, Chico Buarque usa a palavra “gente” duas vezes. Essa palavra merece mais de uma leitura: o compositor se refere a ele mesmo, usando-a como espécie de pronome pessoal, ou se refere às pessoas de modo geral com quem ele se irmana, comungando dores, desesperos e sofrimentos e tudo o que dimana da barafunda dos dias vãos da vida das gentes...
Pois bem: os chamados “erros” e “desvios” visam ao alcance de maior expressividade no dizer. Por isso são comuns em textos literários ou naqueles em que há uma predominância da função poética da linguagem. Metaforizar: eis a questão. Não se duvide: entre incorrer num erro para alcançar maior expressividade ou submeter-se às normas gramaticais dos acertos, qualquer escritor de bom senso preferirá a primeira alternativa.
Bom continuar a leitura do restante do texto. A nós nos bastam os versos em análise...
Hugo Martins
Um gramático tradicional, aferrado aos conceitos/preceitos da Gramática Normativa, ao ler os três primeiros versos da letra da canção Roda-viva, de Chico Buarque de Holanda, diria que o compositor teria incorrido num erro.... Transcrevamos os versos: “Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente...” Estar numa roda-viva é estar entregue ao ramerrão, ao caos, ao lufa-lufa do dia a dia. A partir daí, procedendo-se à leitura do texto, estando o leitor desprovido de qualquer preconceito em relação aos “erros” que porventura nele possamos encontrar, ver-se-á que o gramático “pisa na bola” por se esquecer da existência de um setor dos estudos linguísticos que prioriza a expressividade em detrimento da correção. Isso é matéria da Estilística, parte dos estudos linguísticos voltados para a expressividade/afetividade da linguagem.
O gramático dirá que o compositor erra ao empregar o verbo “ter” no lugar de “haver”. Se este pertence, no caso, à norma padrão; o primeiro, sendo do linguajar coloquial, denuncia que o compositor se irmana com o sofrimento de sua gente no corre-corre do cotidiano. A opção pelo verbo “ter” é intencional. Em seguida, Chico Buarque usa a palavra “gente” duas vezes. Essa palavra merece mais de uma leitura: o compositor se refere a ele mesmo, usando-a como espécie de pronome pessoal, ou se refere às pessoas de modo geral com quem ele se irmana, comungando dores, desesperos e sofrimentos e tudo o que dimana da barafunda dos dias vãos da vida das gentes...
Pois bem: os chamados “erros” e “desvios” visam ao alcance de maior expressividade no dizer. Por isso são comuns em textos literários ou naqueles em que há uma predominância da função poética da linguagem. Metaforizar: eis a questão. Não se duvide: entre incorrer num erro para alcançar maior expressividade ou submeter-se às normas gramaticais dos acertos, qualquer escritor de bom senso preferirá a primeira alternativa.
Bom continuar a leitura do restante do texto. A nós nos bastam os versos em análise...
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