quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Minha amiga, duas coisas ocuparam-me as reflexões e serviram de mote para a escritura dessas "mal traçadas" linhas. A primeira voltou-se para a questão da frase "conhece-te a ti mesmo", inscrita nos frontões do Oráculo de Delfos, templo grego dedicado a Apolo. Há uma tendência a se interpretar a frase, emprestando a ela tons "psicologizantes". Embora toda interpretação, desde que não se revele estapafúrdia, deva ser respeitada, a leitura de alguns mitógrafos guindou-me a dar crédito mais à questão do caos e do cosmos, tomando o primeiro como perturbarção na ordem natural das coisas, e o segundo, como organização, equilíbrio exigido nas mais comezinhas das coisas na vida do homem. Assim, todo excesso, todo descomedimento do homem praticado na ordem posta ao mundo, o grego chamou de hybris. Nesse diapasão, os suplícios impostos a Prometeu, a Tântalo e a Sísifo, por exemplo, explicam-se pelos excessos que aqueles praticaram. Portanto, o "conhecer-se a si mesmo" é o vigiar-se para não se render à hybris. No pensamento cristão, a hybris corresponde ao cometimento do que se convencionou chamar pecado, sobretudo nos textos epistolográficos de São Paulo.
O próprio Sócrates adotou a frase como guia para filosofar sobre a necessidade de se manter tudo no mundo no justo equilíbrio,  o que Aristóteles, depois, vai resumir na parêmia" in medio virtus".
Lembrar que, ao lado daquela frase, havia outra como que lhe servindo de complemento"evite os excessos."
Não é difícil verificar que todo excesso cometido pelo homem, não importa quando ou por que, resulta em prejuízo para ele e, nas mais das vezes, para seus pares.
A outra questão estarrece: o poder judiciário no Ceará impôs a um jornal local não publicar o nome de um juiz que resvalou numa hybris. A coisa se torna mais gravosa, primeiro, porque fere de morte todos os princípios democráticos  inscritos na Constituição Federal, mormente a livre manifestação de pensamento; e, de outro bordo, o mandamento que veda qualquer espécie de censura...
O fato imputado ao magistrado é real, provado e comprovado. Por isso, abre-se grave precedente legal, pois, pelo princípio da igualdade, qualquer cidadão que cometer um delito pode invocar o mesmo privilégio sem que o Judiciário se manifeste contrário a tal desiderato.
É de se ver que a questão da hybris dos gregos não se inscreve na pregação de filosofice barata ou matéria para agradar intelectos desocupados de coisas sérias. Pelo contrário, é algo que está grudado como indelével tatuagem no modo de ser do homem...
Em sua essência, matéria da Ontologia, ciência que se ocupa do Ser enquanto Ser, o homem é o mesmo em todos os quadrantes espaciais e temporais.
Voilà !

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