sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

“AVE, PALAVRA!
Hugo Martins


Em latim clássico, os substantivos são averbados nos dicionários por meio do nominativo (sujeito), ladeado do genitivo (adjunto adnominal). Desse modo, a palavra boca, de terceira declinação, assim se apresenta: OS, ORIS (a boca; da boca). Quando alguém oscula outro alguém, há de se observar que o significado “beija”, na realidade provém de um substantivo latino no diminutivo, cuja significação é boquinha. Numa tradução grosseira, a tal boca pequena se dá pelo arredondamento dos lábios, imagem que lembra o ato de beijar. Isso resulta da raiz do nominativo OS mais o diminutivo CULO, elemento mórfico presente em muitas palavras de língua portuguesa: homúnculo, régulo, aranícula, radícula, ridículo...
Do radical OR(is), tem-se: oral, orador, oração, inexorável (in+ex+OR+á+vel), esta palavra significa “aquilo que não se move a rogos” Observe que a eliminação gradativa de elementos mórficos secundários leva o analista ao significado primário de boca... Uau!
Havia na Grécia antiga os famosos ORÁCULOS, onde se encontravam as pítias, sacerdotisas ou sibilas, profetisas reveladoras, de regra, do destino dos homens, como ocorreu com Laios, pai de Édipo, e com este, quando, descobrindo não ser filho de Políbio, rei de Corinto, também foi ao oráculo destrinçar a questão que deu no que deu... É ler Sófocles...
A sibila do Oráculo de Delfos, templo dedicado a Apolo, e o mais citado na mitologia, indagada sobre quem seria o homem mais sábio do mundo, respondeu ser Sócrates. E justificou: o filósofo diz que a maior virtude do homem é o conhecimento, mas não pode ele nunca alcançá-lo. Eis a concepção que se tem, desde então, do que vem a ser filosofia: busca constante e amorosa de respostas ás perplexidades do mundo pelo estudo... aí está o amor, a palavra, o homem, o mundo e seus deuses.
Nem sempre as sibilas respondiam ás consultas com segura certeza. Por isso, muitas vezes, o consulente levava no espírito a dúvida, a incerteza e a dubiedade. Como ocorreu com aquele comandante. Este ia participar parte  de uma guerra. Antes, para tomar conhecimento prévio do que lhe podia acontecer, foi, com sua ordenança na condição de testemunha, ao oráculo e, lá, fez a pergunta. Eis a resposta, curta, grossa, sem gordura, objetiva e enxuta da profetisa: “IRÁS. VENCERÁS. NÃO MORRERÁS. Tendo dado tudo errado, a ordenança foi cobrar á sibila. Esta disse que houve má interpretação do que dissera. Na realidade havia dito: IRÁS. VENCERÁS? NÃO. MORRERÁS. Uau!
Assim, temos, no léxico português, o adjetivo SIBILINO, quase sempre escanchado no substantivo ARGUMENTO. Ouvir políticos brasileiros, ir aos meios de comunicação, ler petições jurídicas fundadas em inverdades. Há mesmo algumas verdades cotidianas que, em muito se assemelham ao argumento dos ideólogos do nazismo, que diziam: “uma mentira repetida vezes sem conta termina por se tornar verdade. ” É só abrir a janela, olhar o mundo. Sobretudo nessas épocas natalinas, o sibilino está muito atual: bolso vazio, endividamento; “Papai Noel deixou meu presente de Natal”; barateamento do amor; “compre aqui e só pague em janeiro”; renegociação de dívidas antigas para deixar livre o consumidor para se entregar com mais ardor às febris compras; muita luz exterior; escuridão interior... É fácil perceber o sibilino nas relações humanas. Repetimos: é ter olhos para ver. O amor está no ar.




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