“AVE, PALAVRA!
Hugo Martins
Em latim clássico, os substantivos são averbados nos
dicionários por meio do nominativo (sujeito), ladeado do genitivo (adjunto
adnominal). Desse modo, a palavra boca, de terceira declinação, assim se
apresenta: OS, ORIS (a boca; da boca). Quando alguém oscula outro alguém, há de
se observar que o significado “beija”, na realidade provém de um substantivo
latino no diminutivo, cuja significação é boquinha. Numa tradução grosseira, a
tal boca pequena se dá pelo arredondamento dos lábios, imagem que lembra o ato
de beijar. Isso resulta da raiz do nominativo OS mais o diminutivo CULO,
elemento mórfico presente em muitas palavras de língua portuguesa: homúnculo,
régulo, aranícula, radícula, ridículo...
Do radical OR(is), tem-se: oral, orador, oração, inexorável
(in+ex+OR+á+vel), esta palavra significa “aquilo que não se move a rogos”
Observe que a eliminação gradativa de elementos mórficos secundários leva o
analista ao significado primário de boca... Uau!
Havia na Grécia antiga os famosos ORÁCULOS, onde se
encontravam as pítias, sacerdotisas ou sibilas, profetisas reveladoras, de
regra, do destino dos homens, como ocorreu com Laios, pai de Édipo, e com este,
quando, descobrindo não ser filho de Políbio, rei de Corinto, também foi ao
oráculo destrinçar a questão que deu no que deu... É ler Sófocles...
A sibila do Oráculo de Delfos, templo dedicado a Apolo, e o
mais citado na mitologia, indagada sobre quem seria o homem mais sábio do
mundo, respondeu ser Sócrates. E justificou: o filósofo diz que a maior virtude
do homem é o conhecimento, mas não pode ele nunca alcançá-lo. Eis a concepção
que se tem, desde então, do que vem a ser filosofia: busca constante e amorosa
de respostas ás perplexidades do mundo pelo estudo... aí está o amor, a
palavra, o homem, o mundo e seus deuses.
Nem sempre as sibilas respondiam ás consultas com segura
certeza. Por isso, muitas vezes, o consulente levava no espírito a dúvida, a
incerteza e a dubiedade. Como ocorreu com aquele comandante. Este ia participar
parte de uma guerra. Antes, para tomar
conhecimento prévio do que lhe podia acontecer, foi, com sua ordenança na
condição de testemunha, ao oráculo e, lá, fez a pergunta. Eis a resposta,
curta, grossa, sem gordura, objetiva e enxuta da profetisa: “IRÁS. VENCERÁS.
NÃO MORRERÁS. Tendo dado tudo errado, a ordenança foi cobrar á sibila. Esta
disse que houve má interpretação do que dissera. Na realidade havia dito: IRÁS.
VENCERÁS? NÃO. MORRERÁS. Uau!
Assim, temos, no léxico português, o adjetivo SIBILINO, quase
sempre escanchado no substantivo ARGUMENTO. Ouvir políticos brasileiros, ir aos
meios de comunicação, ler petições jurídicas fundadas em inverdades. Há mesmo
algumas verdades cotidianas que, em muito se assemelham ao argumento dos
ideólogos do nazismo, que diziam: “uma mentira repetida vezes sem conta termina
por se tornar verdade. ” É só abrir a janela, olhar o mundo. Sobretudo nessas
épocas natalinas, o sibilino está muito atual: bolso vazio, endividamento;
“Papai Noel deixou meu presente de Natal”; barateamento do amor; “compre aqui e
só pague em janeiro”; renegociação de dívidas antigas para deixar livre o
consumidor para se entregar com mais ardor às febris compras; muita luz
exterior; escuridão interior... É fácil perceber o sibilino nas relações
humanas. Repetimos: é ter olhos para ver. O amor está no ar.
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