PERSONA, PERSONAGENS E DIVAGAÇÕES
Hugo Martins
Procedendo à leitura de várias obras que abordam a Mitologia Clássica, mais e mais me estarreço com a sabedoria daqueles povos antigos, que sedimentaram os alicerces de toda a cultura ocidental que aí está disseminada em costumes e nas formas de pensar o mundo. Há tempos venho colhendo traços biográficos marcantes de alguns deuses do Olimpo e alguns esparsos heróis. Embora variem os estilos, às vezes graves e solenes; outras vezes, descontraídos e histriônicos, ao fim e ao cabo, importa mesmo a fixação da personalidade de cada deus e de cada herói, que com o primeiro se mistura, a qual mantém uma certa constância no que diz respeito, sobretudo, à psicologia de cada um, o comportamento social e a forma como se relacionam com homens. A grande maioria, seja os doze do Olimpo, seja os habitantes dos Campos Elísios (região não infernal dos bem-aventurados), do Érebo ou do Tártaro, duas instâncias das regiões infernais (onde são punidos os ímpios e os celerados), ou ainda alguns mortais que participam vivamente da parafernália mitológica, inscreve-se entre os chamados personagens planos ou rasos na visão do crítico inglês E.M.Forster. Lembrar que Forster alinha, em contraponto a estes, os densos ou redondos. Critério da previsibilidade e da imprevisibilidade. Definem-se, assim, pelo maior ou menor grau de complexidade psicológica, esboçados no vir-a-ser da obra.
Assim, qualquer personagem do romance romântico tende a ser plano, previsível, legível. Não importa a cultura em que essa estética idealista se desenvolveu. Peri, de Alencar, não é senão o espadachim de Dumas, aliás, representantes maiores dos heróis medievais; Jean Valjean e Javert correspondem, mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), ao menino Leonardo e ao Major Vidigal do romance brasileiro Memórias de um Sargento de Milícias. Fantine, de Víctor Hugo é a nossa Lucíola alencarina... E aí vai. De outra parte, o personagem da obra realista surpreende. Sua personalidade é obscura e nunca se revela de todo, mostrando-se, na dinâmica narrativa, aos poucos, paulatinamente, e, mesmo finda a narrativa, continua não definida nos seus quadrantes psicológicos. Os russos dão preferência à criação do personagem complexo. Seguem-lhes a trilha, na França, Stendhal; no Brasil, Machado de Assis; em Portugal, Eça de Queirós. Do mesmo modo, a chamada literatura do pós-guerra, como regra geral, dá preferência ao personagem redondo. As circunstâncias históricas obligent...
Quando dissemos que os personagens da Mitologia Clássica, em maioria, são planos é porque conviver com eles é pisar no terreno de estereotipia. A persona, a máscara, a forma de revelar-se ao mundo é a mesma. Argumento maior para isso é o fato de que as narrativas mitológicas fazem as vezes da psicologia e retratam o modo como foi organizado o cosmos... E cada deus, e cada herói vai desempenhar papel de relevância na organização do cosmos. Vamos ter, assim, um desfile de comportamentos e relatos em que a persona do homem se mostrará em toda a sua plenitude, com suas baixezas, suas dissimulações e falsidades, mas também com suas grandezas e beatitudes.
Zeus, Hera, Poseidon, Ares, Hermes, Apolo, Hefesto, Afrodite, Atena, Artemis, Demeter, Hades, bem como todos os que os precederam ou sucederam, cada um assenta sua personalidade na linearidade a toda prova. Por isso, que cada um representa um dado aspecto da personalidade do homem. Não é à toa que a Psicanálise em muito se fundamenta na simbologia representativa de alguns personagens da mitologia. A propósito, o professor Junito de Souza Brandão fecha a introdução do primeiro volume de sua obra Mitologia Grega desse modo aí aspeado: “Esperamos que os três volumes de Mitologia Grega cumpram as duas finalidades únicas que tivemos em mira ao redigi-los: cooperar para que as humanidades clássicas voltem urgentemente ao lugar que lhes compete e servir não só aos que lidam com a ciência da psiquê, mas também a quantos acreditam na perenidade do MITO, que não é grego nem latino (acresço: são mais presentes na cultura), mas um farol que ilumina todas as culturas.”
Ler o texto mitológico é, de certo modo, analisar e enxergar com maior clarividência o homem, desvendando-lhe os mistérios, escutando o eco que provém de sob sua persona (máscara de ator no teatro). Não só com o intuito de desvendar almas como fazem analistas em suas fainas terapêuticas, mas, sobremaneira, para se dar conta de com quem se convive... Portam-se máscaras de todas as sortes. Depende da ocasião... Depende do teatro e da encenação.
Voltaremos com a narração de historietas envolvendo os deuses e heróis da mitologia, procurando nelas desencavar significações mais subterrâneas e até mesmo mais à superfície da aventura interpretativa
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