CHÁ DE ETIMOLOGIA E OUTROS CHÁS
Hugo Martins
O aluno pergunta ao professor o que se esconde por trás do sintagma CURA d'ARS, que dá nome a um hospital de Fortaleza. A palavra Ars, por si só, desvinculada da locução, explica o professor, é palavra latina, cujo significado é arte. Se se levar em conta sua relação com a palavra CURA, por meio da preposição, designa uma cidade da França. Assim, o Cura, também palavra do léxico latino, significa aquele que cuida, o cuidador das almas daquela cidade.
Não é difícil encontrar palavras em nosso belo idioma derivadas daqueles dois nome. De Ars, temos: arte, artifício, arteiro, artífice, artista, artimanha; de Cura, provêm: o substantivo e o verbo, seja em em português, seja em latim, com a acepção por todos conhecida; curador, o que cuida, em juízo, dos interesses de pessoas consideradas, pela ciência do direito, absoluta ou relativamente incapazes: aos loucos e aos pródigo deve-se eleger, pelas formas processuais, um curador; quem ocupa, no serviço público, uma sinecura, é alguém dado à corrupção e à falta de vergonha de políticos pilantras, pois SINE é preposição latina que significa SEM, e CURA, conforme já se viu, que significa cuidado, ocupação. Assim, a sinecura só obriga o sujeito a ir buscar o salário sem a obrigação de realmente trabalhar. Coisa da cultura brasileira...
Para não alongar a conversa, listamos mais algumas palavras que carregam em seu bojo semântico a ideia aqui desenvolvida acerca da palavra CURA: cuidado, procurar, curatela... Procuração é documento que se concede a alguém para que este cuide do interesse do outorgante. Bom exemplo. Quando alguém pretende resolver alguma coisa em juízo, passa procuração ao causídico, o qual vai resolver, bem ou mal, os interesses de quem tem interesses de qualquer ordem. Procurar, formada da preposição latina PRO aliada ao verbo Cura. PRO significa estar à frente. Nesse sentido, veja-se processo ou projeto, palavras que veiculam a ideia de para frente...
Ouvi a explicação do professor; vi a satisfação do aluno, e cuidei de procuras nos livros toda essa história.
O professor tinha razão Quanto a mim, fiquei convencido de que o latim é indispensável ao estudioso e extremamente necessário para a explicação de muitos fatos da língua que a Linguística não ousa desvendar.
Schopenhauer, quando soube que o ensino do latim seria suprimido do currículo das escolas europeias, lastimou e previu algo de catastrófico despencaria na alma do alunado. Parece que a indignação do filósofo pesou e muito. Na Alemanha, o latim é ensinado durante nove anos... Aqui no Brasil, foi retirado do quadro curricular nos anos sessenta. Trágico. Depois retiraram as matérias concernentes à Filosofia e à Sociologia. Mais trágico ainda. Para pensar e escrever com propriedade e clareza, basta o Google e a profusão de notícias disseminadas nas redes sociais, formadoras de pensadores de largo coturno. Livros para quê, se se vive na aldeia global, premonição de McLuhan, linguista e semiólogo canadense...
Voltaremos...
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