terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ORTOGRAFIA

Hugo Martins

Gosto por demais da imagem que diz: aprender a ortografia de uma língua supõe ser o sujeito bem versado na arte de fotografar e revelar. Não entra aqui nenhum instrumento como máquinas fotográficas ou celulares ou, ainda, técnicas de revelação, aprendidas com fotógrafos profissionais. À guisa de lembrete, qualquer pessoa, hoje, fotografa, a parafernália técnica tornou isso um ato banal, corriqueiro e pouco inventivo.
O fotografar e o revelar que se pretende salientar, agora, dão-se, em primeiro lugar, numa simples apreensão visual;  e, em segundo, pelo desenho mecânico de caracteres gráficos numa dada superfície: papel, areia, bronze, parede, gesso, lápides tumulares, muros, tudo à livre escolha da ocasião.
Quanto mais vezes ocorre o ato da fotografia ocular, maiores as possibilidades de se proceder a revelações de conformidade com normas fixadas previamente, as quais se fundam em critérios técnicos traçados por homens doutos (palavrinha antipaticazinha do caralho). Assim, a partir daí, não é difícil concluir que aprender a desenhar as letras e demais notações gráficas de uma palavra de não importa que língua está na dependência das visitas feitas a texto de cunho escrito. Não há regras, mas aproximação e familiaridade. Por exemplo, se já me passou ante os olhos, por mais de cinquenta vezes, a palavra ASSESSOR, por exemplo, poucas são as probabilidades de eu grafá-la ACESSOR por associação com ACESSO... Aliás,  a grafia "acessor" não existe como forma de conformidade com o Sistema Ortográfico em vigência.
Trocando em miúdos, a ortografia de um idioma "aprende-se" por meio de uma prática simples, fácil e segura: LEITURA.
A propósito, um grupo de trinta jovens, no Brasil, concorrendo a vagas de estagiário numa empresa, submeteu-se a exames, cujo conteúdo levava em conta conhecimentos de língua inglesa, computação e "língua portuguesa". Nas duas primeiras, todos se saíram muito bem, mas num ditado de palavras soltas do léxico português, mais da metade do grupo, resvalou em mais de vinte palavras das quarenta ditadas.
Os escorregos: eicessão por exceção; procimo por próximo; pretencioso por pretensioso; ância por ânsia; normau por nomal; umou por humor... Afora outros abortos gráficos.
Coloquei, acima, o sintagma língua portuguesa entre aspas porque o assunto ortografia não é língua portuguesa, mas mera convenção.
De tudo isso, restam duas conclusões: o estudante brasileiro, em sua grande maioria, é pouco dado á prática da leitura (aliás, há estatística demonstrando que, no ano de 2015, setenta e cinco por cento de pessoas habilitadas a ler no Brasil não leram sequer um livro) ; a outra conclusão mais alvissareira é que nóis num é muito chegado a purtugueis purqué noço negossio é cum ingreis.

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