sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

NO MÍNIMO INTERESSANTE

Hugo Martins

Chegado de uma dessas  famigeradas confraternizações que antecedem o dia de Natal, ainda com a cabeça meio anuviada dos efeitos do vinho, deito-me na minha redinha de corda e começo a rabiscar o texto, lembrando tão só da presença de uma pessoa que lá estava e com quem não me avistava desde o tempo em que fôramos colegas no Curso de Letras.
Continua a mesma. Corpo esbelto, ainda bem torneado. Cabelos lisos escorrendo pelos ombros estreitos, olhos grandes,  interrogativos, boca bem desenhada e carnuda. Não lhe reparei as rugas. A maquiagem era discreta e equilibrada. Apenas os olhos saltados e coruscantes movimentavam-se com muita vivacidade, marca de sua personalidade inquieta e perscrutadora. Sempre foi muito inteligente e lida.
Ficamos a um canto da mesa a conversar, meio alheados da presença dos demais ex-colegas. Desintegrados do grupo, mas profundamente sintonizados pelo papo e pelo vinho, entregamo-nos a assuntos respeitantes a literatura, matéria que leciona, e assuntos afins. A propósito da discussão sobre personagens complicados e tendentes a cultivar aceitável misantropia, veio à tona assunto respeitante à busca da paz, porque lhe disse ser eu afeito a fugir para penínsulas interiores. Ela disse que sempre enxergou essa faceta no meu modo de ser e acrescentou não ver nada de anormal nisso, sobremaneira porque sempre andei muito bem acompanhado de livros. Ri e continuei a explorá-la. Lancei-lhe um problema e dela quedei-me a escutar  uma explanação. Vi nesta uma boa dosagem de lógica. Problema lançado: as propaladas terapias de natureza psicológica. Algum fundamento? Ela disse que sim, tão válidas quanto qualquer desabafo catártico ou discurso confessional. Mas há um porém, aduziu. Fiquei à espera do argumento. Se se for considerar, disse ela, toda e qualquer manifestação para o afastamento das chatices do mundo, do vazio das pessoas e suas superficialidades, muita gente da melhor qualidade teria que se submeter a terapias sem delas necessitar. Indaguei: Como assim? Ora, meu caro, disse ela rindo... Então lembrou os frades trapistas, ordem religiosa, cujos seguidores são obrigados a se submeter, além dos votos de castidade, pobreza e obediência, ao voto de silêncio. Há um escritor de nome Thomas Merton que pertenceu a tal ordem e lançou um livro sobre o assunto. Trata-se da obra A Montanha dos Sete Patamares.
Que dizer de ordens religiosas do Ocidente, cujos filiados abandonam a "vida como ela é" e se refugiam em mosteiros, entregues a uma vida de renúncia mundana? E os monges orientais? E os anacoretas?
Aquela batida história do posicionamento filosófico de Sarte de que "o inferno são os outros", presente na peça teatral A Portas Fechadas, como tem fundamento! Com efeito, nossas neuroses, nossas dores e demais doenças da alma se fundam no outro, na expectativa que construímos a ver o que o outro diz ou pensa acerca de nós mesmos. A muié tava cá gota, como diz o zé povão. Por isso, perguntei: e aí, aqueles do povo, que não têm dinheiro para pagar terapeutas? Ela assim respondeu: a estes basta o respeito que lhes devem as sociedades perversas, indiferentes ao outro, inclusive pondo em prática uma distribuição da renda por todos produzida de modo que alguns compram vinte pães para um, e um compra um pão para vinte... Continuei: e os céticos, indiferentes e cínicos que fazem pouco das terapias, colocando-as como refúgio de burguês? Ela lembrou alguns depoimentos do falecido Millôr Fernandes, que via nisso tudo uma farsa, e acrescentou fazer parte do grupo que não cria na coisa. O que há mesmo é muita dependência de almas frágeis a almas aparentemente mais fortes, que leram toda casta de psicanalistas da moda, os quais se revestem de uma carapaça de conhecedores da alma de seu semelhante. Eu cá comigo: "égua, eu não via a coisa por esse ângulo..."
E aí, essa turma de cínicos e gozadores, que deve fazer para se livrar de angústias, medos, neuroses, ansiedades e outros males do mesmo jaez? Ela riu e fechou a conversa: "deve continuar enraizada em sua opinião, sem se preocupar com que seu fulano pense. Assim, diante de situações aparentemente aflitivas, pode encostar-se a uma pessoa de confiança, se é que existe, e fazer,  como diz o vulgo,  largos desabafos. Ou então, estear-se na apreciação da obra de arte, de preferência literatura e música. Em último caso, fazer respirações completas, rir da estultície humana e levar a vida sem se preocupar com o que o que seu fulano pode pensar acerca do que você faz e pensa do mundo.
Todos fizemos as despedidas, vim para casa, dizendo para mim mesmo : ganhei o dia. Quanto a aplaudir ou discordar de minha querida e iluminada colega, é coisa que deixo para depois...
Morfeu cochicha no meu ouvido já ser hora de aninhar-se às suas amplas e acolhedoras asas. Vou fazer isso.

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