quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

LITERATURA (QUE DIABEISSO?)

Hugo Martins

O "ensino" de tal matéria reduzia-se ao biografismo estéril quando não se voltava para questões que mais pareciam seções de fofocas e disse-que-me-disse tão ao gosto de leitores de almanaques,  senhoritas desocupadas e senhoras entregues à  doce ociosidade bovarista. Certa ocasião, foi colocada numa prova a seguinte pergunta: "qual o olho cego de Camões, o esquerdo ou o direito? Profundo, não?
Desenvolveu-se uma pedagogia machadiana. Não se lia a obra do autor de Dom Casmurro. O professor se limitava a ressaltar: "Machado de Assis era mulato, gago e sofria de epilepsia. Daí vinha a marca de seu pessimismo." Pergunta-se qual?
Para que ler Os Sertões? O importante era pôr às claras o fato de que Euclides da Cinha fora traído por sua mulher, a senhora Ana de Assis, cujo amante, o senhor Dilermando de Assis,  irá assassinar o criador de À Margem da História. Não importava o estudo da obra, nem  mesmo uma só observação de que se trata de obra de cunho sociológico, nascida dos artigos que Euclides escrevia para o jornal Estado de São Paulo, denunciando as mazelas em que vivia o homem entregue à sua própria sorte, totalmente ilhado da História.
Em  Vidas Secas, não interessava a linguagem ressequida como o ambiente e a vida dos personagens; a arquitetura do romance era algo de somenos importância;  a animalização do homem e a hominização do animal eram fatores irrelevantes. Por que saber quem era aquele personagem nomeado Soldado Amarelo? Bom mesmo era se ficar sabendo que Graciliano Ramos era simpatizante de ideias esquerdizantes e que fora preso pela ditadura Vargas, que o jogou nos porões da Ilha Grande.
O indianismo alencarino, que surge com mais pujança nos romances Iracema e O Guarani e ressalta a formação étnica do povo brasileiro, bem como o modelo de herói representado por Peri nào assumia qualquer relevo. O importante era pôr em destaque que Iracema uniu-se ao guerreiro branco (Martim Soares Moreno), morreu de parto e deixou um filho, Moacir...
É o fim da picada, tudo se dizia da obra. Proceder à sua leitura não tinha nenhuma importância. Do caralho, não?
Literatura é forma de conhecimento, que se assenta nos primados da intuição criativa do artista e instaura, na sua verossimilhança, indagações acerca do viver e do morrer. Enfim, volta-se para a interpretação de tudo aquilo que um pensador alemão chamou de "humano, demasiadamente humano". Não é passatempo barato, tampouco matéria para preencher a estreiteza mental de um sem número de idiotas que não suportam o peso da leitura de dois ou três parágrafos de uma página de obra que deles exijam o mínimo pensar.
Que não se confunda a obra literária com livrecos da moda, colocados em seções de mais vendidos em revistas semanais,  ou arrumados e postos à vista do leitor ingênuo em balcões estilizados.
Como distinguir uma coisa de outra? Aí é outra conversa, geradora de mais e mais conversas...
Literatura não se ensina... Aprende-se com ela se embriagando em perpétua orgia...

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