FESTA DA CRISTANDADE ou LIBAÇÕES A DIONISO?
Hugo Martins
Ontem, não resisti e, prazerosamente, sentei-me à mesa repleta de acepipes para todos os gostos, regados por inebriante vinho tinto. A visão e gosto dos primeiros, a que se somaram aroma e sabor do último, fizeram crer aos em volta à mesa estar se deliciando com o manjar e a bebida dos deuses do Olimpo. Talvez porque esteja eu comprometido com profusa leitura da mitologia clássica, a comparação me pareceu pertinente e adequada. Dentro em pouco, essa ideia mais se robustecerá.
Naquele banquete, que as pessoas e a indústria cultural chamam de ceia de Natal, numa espécie de evocação daquela retratada num quadro de Da Vinci, encontrei mais uma vez uma ex-colega do Curso de Letras, a quem há muito não via e com quem encetei longo papo, direcionando o assunto para matérias em que se vislumbrasse um mínimo de reflexão. Sendo ela professora de literatura, ficávamos mais à vontade, pois bem sabia ela, desde os anos 70, do meu acendrado amor pelas belas-letras.
Chamei ceia de banquete porque lembrei de uma observação que fizera minha amiga, evocando o banquete platônico pelo aspecto da bebedeira e da orgia e não a questão colocada e discutida por seus participantes naquele festim pagão.
A mulher "tava ca gota" como sugere a linguagem matuta. Pois não é que levantou uma ideia insólita, meio malucóide... Para os padrões do bom burguês comportado, que se alinha à ideia do homem unidimensional de Marcuse. Sim, porque, da minha parte, aplaudi o achado. Que havia de novo no discurso. Dizia ela: "Hugo velho de guerra, não se iluda, a comemoração do Natal, aqui em terras tupiniquins, é uma festa pagã, que transcorre sob a influência do deus Dioniso, em que tudo é orgia, desfile de vaidades e hedonismo. Essa história de congraçamento, confraternização e outras balelas afins não passa de uma deslavada farsa. O povo quer mesmo é comer, beber, mostrar a roupa nova, de preferência "de marca". Não há porríssima nenhuma de sentimento fraterno ou coisa que o valha.
Cuidado, disse eu, você pode estar profanando as nobres intenções de homens de boa vontade, que veem no Natal momento oportuno para apregoar o amor... Ela riu, deu um gole e replicou. Bons artistas versados no jogo do "me engana que eu gosto". Continuou: por que esse amor desabrido não continua depois das festas? Abra os jornais do dia seguinte, meu caro, que você verá que tudo que ocorreu antes é desmentido !
Estão perguntei: "isso é universal? Respondeu: "claro que não, pois entre uma ou outra família ainda é possivel se enxergarem fortes laços de amor e ternura. Ainda assim, vêm à tona jogos de interesse e partilha de amor a quem der mais. Cinicamente discorreu:" olhe, companheiro, filhos há que, pertencentes a famílias cujos pais são separados, no banquete natalino, sempre se guindam para aquele de bolsa e mesa mais generosas... Não resisti e dei uma gaitada... Ela se limitou a ficar me olhando e jogou a proposta cruel: "e você, Hugo, o que pensa disso"? Eu disse: "minha cara, eu não tenho opinião solidamente formada sobre a questão e lembrei-lhe aquela famosa frase do escritor latino Terêncio" sou homem e nada que diga respeito ao homem me é estranho". E acrescentei: juro-lhe que adoro os banquetes natalinos pelo que eles ostentam de paganismo. A eles compareço sempre com três propósitos: beber a locé, comer como um abade e jogar conversa fora como sói acontecer com quem gosta de encontrar pessoas de sua estatura, minha cara.
Desde há tempos, sempre vi nessa amiga a virtude dos grandes bavardeurs: donos da arte de conversar e de colorir o mundo com outras tintas que não o psitacismo monótono dos néscios e tolos.
Não concordo nem discordo de suas ideias, "antes pelo contrário", como diria Antônio Maria...
Depois de mais conversas sobre literatura e assuntos afins, Despedimo-nos com a mesma efusão dos tempos dos bancos escolares quando conversávamos sob as frondosas árvores do hoje Bosque Moreira Campos.
Chegado a casa, deitei-me na redinha de corda, garatujei o texto. Vez por outra, Morfeu fazia sinais para mim... Resisti aos apelos, sustentei o peso das pálpebras por mais algum tempo a fim de fechar a leitura do capítulo sobre o deus Ares, iniciada no começo da noita antes de sair de casa para participar do banquete tão gozoso.
Valeu a pena ter desistido de ficar em casa nessa noite natalina do ano de 2016.
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