REGALO LITERÁRIO
Hugo Martins
O romance referido no texto é, para mim, um dos chamados livros de cabeceira, aquele que o leitor sempre revisita a ver se encontra outras nuanças e novas luzes reveladoras de "outras coisas" nem sempre reveladas nos primeiros contatos. Ler um romance desse porte é sempre se regalar, é sempre mergulhar com alegria na orgia que a grande arte proporciona. Aqui encontramos o ceticismo cortante; aqui vivenciamos o estripamento de almas com o bisturi amolado por cruel e explicável ironia; aqui o cor de rosa da vida cede lugar à negra e crua amargura, faceta inseparável do homem; aqui não se fazem concessões ao jogo persuasivo dos substantivos confeitados por adjetivos melífluos e vazios por si mesmos. Não. Aqui está "a vida como ela é", desprovida dos "véus" de mentirosas e enganosas alegorias. Tudo perpassado pela linguagem rica de fulgurações semânticas, límpida e reflexiva, porque é espelho e pensamento.
Vamos lá.
Livros também comemos. Deles há que devoramos. Os ingredientes neles contidos são o ponto de partida para definir o bom ou o mau gosto da obra. Sim, há obras gostosas, que provocam tesão estético, tiram seu sono, viram a noite com você e promovem aquela bacanal estonteante, plena de prazer. Também há a obra insípida, destituída de qualquer atrativo ou visgo para pegar o leitor. Quando você pensa que pode desfrutá-la, arrancar dela um momento de prazer, mesmo com meros arroubos burocráticos, ainda que por breves instantes, ela joga em seus olhos a poeira do sono, obriga você a sair do leito e fecha-se no seu sono de cinderela. O jeito é dormir. Aliás, há leitores que adoram obras artísticas dessa natureza, as que servem de sonífero, tão só.
O primeiro passo são as preliminares. Tomemos para a explicação a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas e fiquemos com ela só nas preliminares, nada de penetrações mais profundas. Primeiro passo: exploração física. Virar para um lado e para outro as folhas, tocá-las, repassá-las a ver como se organizam as partes, capítulos, prefácio, explicações necessárias e outros elementos que tais. Segundo passo: saber o nome dela. Um dos momentos mais decisivos para que seu desejo de gozo atinja o clímax está aí. Se pular essa parte, vai perder, de muito, deslumbramentos e êxtases. Assim, a palavra “póstuma”, adjetivando a palavra “memória” é de suma importância para que você mantenha vivas as expectativas insertas na obra. Póstumo é adjetivo de origem latina que diz de tudo que vem depois da morte. Ora, o título da obra assevera que alguém escreveu suas memórias, só que ele não as escreveu e morreu; não, ele morreu e depois as escreveu. Releia o título da obra. Para atestar isso, você já leu, abaixo do título a dedicatória assim vertida em bom português “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS”. Ói, o estigma da morte! Ao iniciar a leitura da obra, que abre com AO LEITOR, que antecede o capítulo primeiro, o autor adverte que seu livro não é pra qualquer leitor e diz ser “obra de finado” e, mais à frente, depois de outras considerações, acrescenta “...evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro lado do mundo.”
Pronto fica entendido que estamos nos limites da verossimilhança própria do fazer artístico e não na seara da verdade que a ciência persegue. Muitas vezes, a beleza da obra de arte está em suas absurdidades, na criação de situações impossíveis para o atingimento máximo do êxtase estético.
Dados os primeiros passos, amigo, vá fundo nas “Memórias” e procure desencavar as significações mais profundas, embuçadas “pela pena galhofeira e a tinta da melancolia”, instrumentos com que Brás Cubas põe às claras toda a grande desilusão, todo o máximo desencanto, todo o ceticismo e niilismo em relação ao homem, este ser que, em essência, atemporal e inespacialmente, nunca muda. É mau, é egoísta, é mentiroso, é dissimulado e desleal. Eis a visão de Machado de Assis nesta e em outras obras de sua fase chamada realista.
Dados os primeiros ingredientes, resta ao leitor ir misturando os demais, sem pressa, sem açodamento e, de vez em quando, dando uma provadela a fim de verificar se a mão pesou no acréscimo de algum dos elementos do bolo literário. Bom proveito...
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