segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

REFLEXÃO DESLOCADA EM DATA NATALINA
Hugo Martins
Até que ponto o futebol e o discurso midiático se irmanam para levar a efeito um processo de descerebração das massas, por meio do qual o real é obnubilado por apelos encantatórios da indústria cultural, a qual visa a vender não só perverso furor consumista de bens econômicos, mas, sobretudo, a repassar ideologias de todo jaez, sobremaneira aquelas em que o jogo do poder se esconde no manto diáfano dos jogos da linguagem?
 Ora, embora haja notícias de que a prática do futebol é coisa antiga, praticado, mutatis mutandis, já mesmo na antiguidade romana, já entre as populações indígenas, só assumiu, porém, as feições com que é conhecido e praticado nos tempos modernos quando da eclosão da Revolução Industrial. À época, os operários das fábricas na Inglaterra se reuniam, depois da faina diária, para praticar o soccer em terrenos baldios das indústrias e fábricas.
 Só no final do século XIX, foi trazido para o Brasil por Charles Miller, filho de pai escocês e mãe brasileira, que, vindo da Inglaterra onde fora estudar, trazia na bagagem bolas, chuteira e regras sobre o futebol.
 Desde então, o futebol, traduzido pelo chavão “esporte bretão”, logo caiu no gosto do povo brasileiro, malgrado sua prática ser permitida apenas às pessoas pertencentes às chamadas elites. As pessoas frequentavam os estádios vestidas no extremo rigor das modas de então: homens de paletó, gravata e chapéu; mulheres de vestidos longos à guisa belle époque, leque e sombrinhas. Negros e pobres eram alijados sumariamente do lazer traduzido em assistir aos embates e a deles tomar parte. Quando se permitiu a presença de negros posando de jogador, caía-se na ridicularia de macaquear estes em branco, pelo processo de recamar as partes visíveis do corpo com tinta branca ou com pó- de- arroz...
 Pela ordem natural das coisas que impõe o devir histórico, a popularidade do futebol se foi espalhando pelo país, com o improviso das bolas de meia e o aproveitamento dos espaços urbanos dos chamados campos de várzeas, em que o populacho iniciou um processo de inserção naquele esporte.
 Desde então, aqui e ali, apesar do desagrado da classe dominante, começavam a figurar timidamente nas equipes os alijados pelo preconceito. Já se viam brilhando em alguns times jogadores negros, cujo trato malabarístico com a pelota permitia-lhes jogar na equipe, embora se lhe vedassem a entrada nas dependências do clube. Isso só era possível pelas portas do fundo.
 Não foi longo o tempo para que o futebol aqui se adaptasse, pois, aqui chegado em 1894, já, em 1930, a seleção brasileira já participava da primeira Copa do Mundo, que foi sediada no Uruguai. Com a conquista do primeiro campeonato mundial de futebol pelo Brasil em 1958, instala-se no país uma febre patrioteira, de ufanismo ingênuo, em que as pessoas, como que narcotizadas, ausentam-se do real e “abrem a guarda” para internalizar as ideologias e a se render a toda sorte de apelo publicitário.
 Época, pois, propícia a que se instaurassem os “anos dourados” do governo de Juscelino, exalçados pelos meios de comunicação de massa, sobremaneira pela televisão, aqui implantada por Assis Chateaubriand, espécie de cidadão Kane, dono dos Diários Associados, complexo de jornais, revistas e canais de televisão, que levavam aos quatro cantos do país não só o que ia pelo mundo mas também a leitura otimista dos problemas brasileiros, sempre minimizados ou decantados pelo discurso maroto e edulcorado, de quem está por trás das câmeras e cordéis.
  É intuível que a força ilusória dos meios de comunicação de massa no Brasil assumiu maior proporção com a instalação da ditadura militarista que, apesar de gerir o país com o argumento irrespondível de cassetetes e borzeguins, daqueles fez uso para levar às massas o sofisma de que “este é um país que vai pra frente” ou “O Brasil é um país feito por nós” e que, portanto, quem não o amasse que o deixasse. Assim, enquanto se ouvia o canto ufanista de “noventa milhões em ação”, música de sabor épico saudando os êxitos do selecionado brasileiro na Copa do Mundo de 1970, trazida aos “televidiotas” já por meio de televisores, quem ousasse discordar de alguma forma da política engendrada por Brasília sofreria torturas, humilhações e outras formas de vilipendiar a dignidade humana. Afora isso, sufocava-se qualquer manifestação artística destoante dos ideais da Escola Superior de Guerra, que, “nas escolas, nas ruas, campos, construções”, propalava os perigos que representavam, para a segurança do país, compositores, teatrólogos, literatos e quem quer que fosse visto acenando bandeira sem as cores dos objetivos daquela sinistra Escola. Muitos desses agentes, quando não eram mortos, deveriam ser presos, arrebentados ou, em última instância, autoexilar-se. O furor contra as “forças estranhas” era tão intenso, que, certa feita, alguém fora preso para explicar por que sobraçava o romance O Vermelho e o Negro, do romancista francês Stendhal... Mas o país ia de vento em popa...
 Sim. Também mergulhado num tal “milagre brasileiro”, o povo acreditava piamente nos progressos que o país experimentava: o comércio era pródigo, e as vantagens que oferecia, fartamente propaladas pelos meios de comunicação, constituíam uma espécie de canto de sereia a que todos se rendiam. Mal se sabia que, por trás dessa festa consumista, existiam problemas estruturais, enevoados pelo manto diáfano e ilusório da publicidade e de outros meios subliminares de embair e narcotizar consciências.
 Não é só no plano da propaganda política, porém, que meios de comunicação de massa e futebol se dão as mãos para exercer o poder de criar ilusões. Atrelando-se aos objetivos da indústria cultural, criam malabarismos argumentativos capazes de vender até mesmo aquecedores no Saara e geladeiras no Polo Norte. Um estádio de futebol, entrevisto pelas câmaras de televisão, mais parece uma grande montra, cujos manequins móveis também ostentam em seus uniformes reclamos, chamarizes ao consumo desenfreado. Em torno do campo, afixam-se fileiras de placas, que parecem estar ali apenas para anunciar... Por elas, se vendem toda espécie de produtos: remédios, xampus, roupas, carros, telefones, planos de saúde e toda sorte de mercadorias... E o jogo continua...
 Os jogadores não são apenas atletas, mas vitrinas vivas, pois é mais fácil distinguir as propagandas que as cores do uniforme. Quando uma câmara mostra um jogador caído no gramado, não se pretende focalizar uma perna ou coxa machucadas, mas a marca que se encontra no calção, no meião ou na chuteira. Além desses jogos subliminares, inventa-se um ainda mais perverso: o mito do vencer na vida sem fazer força. Ser jogador de futebol é a grande meta de boa parte da juventude, com especialidade daquela parcela desprovida das necessidades primárias: os humilhados e ofendidos, aqueles cuja dignidade já é lesada antes mesmo do nascimento...
 Outro aspecto a ressaltar é o processo de heroificação desse ou daquele jogador em quem se sapecam apodos que evocam a grandiosidade do discurso épico. Se este é divino, aquele é maravilhoso, outro é fabuloso. Toda essa legião enfileira semideuses travestidos de garotos-propaganda. Levam eles a todos os rincões o convencimento para a aquisição de produtos, sobretudo industrializados, cujas eficácia ou eficiência ignoram. Importa vender alguma coisa seja a fim de pôr em evidência, subliminarmente, que os objetivos políticos do país estão sendo alcançados pela intervenção deste ou daquele político, seja para conduzir a grande massa despolitizada a consumir aquilo de que realmente precisa, aquilo de que, às vezes necessita, ou mesmo aquilo de que jamais precisará.
 Eis, pois, o problema: o futebol perdeu seu caráter de prática esportiva gratuita para servir de pasto para o engendramento pelos meios de comunicação de massa de um discurso ilusório, em cujos meandros se escamoteia o poder, que engana, humilha e, sobretudo desvirtua o real.

Nenhum comentário:

Postar um comentário