PENSAR, PROFESSOR,
PENSAR...
Hugo Martins
Certa ocasião, em
conversa com um amigo, o professor José Nascimento Braga, surgiu um assunto de
larga importância para quem lida com a língua, qualquer que seja ela, no que
tange à sintaxe, parte dos estudos linguísticos que trata da estruturação do
pensamento. Em língua portuguesa, por exemplo, quando se constrói a frase ou
procede-se a uma espécie de anatomia a ver como se apresenta o esqueleto do
pensamento, há de se levar em consideração os aspectos atinentes a
concordância, a regência e a colocação dos termos, de modo que o ideia se
revele límpida, enxuta, cristalina.
Há um poema de Vinícius
de Moraes, por todos decantado como “lindo”, mas limitadamente compreendido
devido estar vazado num cipoal sintático que impede a maioria dos leitores alcançar-lhe o sentido. O ser lindo pode estar fundado no ritmo e na musicalidade de cada
verso, mas, se transpirado da construção do pensamento (sua estrutura
sintática), ficaria mais lindo ainda.
Transcrevamos apenas o primeiro quarteto e procedamos à análise
sintático-semântica dele.
“De
tudo ao meu amor serei atento,
Antes,
e com tal zelo, e sempre, e tanto,
Que,
mesmo em face do maior encanto,
Dele
se encante mais meu pensamento.”
Primeiro passo: definir o
número de frases; em seguida, o número de orações em cada uma das frases; e,
por fim, definir cada termo estruturador de cada oração. Assim, procede-se a
uma operação lógica por dedução, ou seja, partindo-se do geral para o particular
como se faz com um axioma matemático.
Os limites da frase, pelo
menos em língua portuguesa, de regra, são definidos por pontuação fonética, na
fala; por pontuação gráfica, na escrita. Assim, fica fácil ver que o quarteto
supra está assentado em uma só frase. Pronto. E agora? É olhar para o quarteto supra e ver que ele
está se referindo a alguém que diz que será atento a alguma coisa; será atento
com muito zelo, será atento sempre, e será excessivamente atento. Desse
advérbio exprimindo fortíssima intensidade, resultará uma consequência. E aí,
salta aos olhos um paradoxo belíssimo expresso por aquele que se declara, em forma
de compromisso, alguma coisa a alguém.
Vamos lá, vamos arrumar o
pensamento para fruir a beleza que dele dimana? Pois bem.
Primeira ideia: EU SEREI
ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO;
Segunda ideia: EU SEREI
ATENDT AO MEU AMOR SEMPRE;
Terceira ideia: EU SEREI ATENTO
AO MEU AMOR COM TAMANHO ZELO;
Quarta ideia: EU SEREI
ATENTO AO MEU AMOR DE TAL FORMA;
E tome a consequência:
QUE, AINDA QUE EU ME ENCONTRE EM FACE DE UM ENCANTO INDEFINÍVEL, MEU PENSAMENTO
MAIS SE ENCANTARÁ DO MEU AMOR... Ufa! Daí
para a frente o tom do soneto assume a mesma pontuação lírico-confessional como
sói acontecer no discurso de menestréis, trovadores e boêmios...
Continuamos a conversa.
De repente, Nascimento olha para mim e diz: “companheiro Hugo, a língua é
fácil; a munheca do povo é que é dura”. E dizendo isso, puxou do bolso um
prospecto e pediu-me que lesse. Lá estava: COLAÇÃO DE GRAU ESPECIAL. Com
efeito, a construção peca por resvalar na sintaxe de colocação. Aqueles alunos
que perdem a data da Colação de Grau aprazada pela instituição devem
fazê-lo depois, em data específica, junto ao reitor. Trata-se de solenidade de
COLAÇÃO ESPECIAL DE GRAU. Fácil, não? Não é o grau que é especial, mas a
solenidade da colação...
Voltaremos com o Ministro
Celso de Melo, do Supremo Tribunal Federal...
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