quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

PENSAR, PROFESSOR, PENSAR...
Hugo Martins

Certa ocasião, em conversa com um amigo, o professor José Nascimento Braga, surgiu um assunto de larga importância para quem lida com a língua, qualquer que seja ela, no que tange à sintaxe, parte dos estudos linguísticos que trata da estruturação do pensamento. Em língua portuguesa, por exemplo, quando se constrói a frase ou procede-se a uma espécie de anatomia a ver como se apresenta o esqueleto do pensamento, há de se levar em consideração os aspectos atinentes a concordância, a regência e a colocação dos termos, de modo que o ideia se revele límpida, enxuta, cristalina.
Há um poema de Vinícius de Moraes, por todos decantado como “lindo”, mas limitadamente compreendido devido estar vazado num cipoal sintático que impede a maioria dos leitores  alcançar-lhe o sentido. O ser lindo pode estar fundado no ritmo e na musicalidade de cada verso, mas, se transpirado da construção do pensamento (sua estrutura sintática), ficaria mais lindo ainda.  Transcrevamos apenas o primeiro quarteto e procedamos à análise sintático-semântica dele.
“De tudo ao meu amor serei atento,
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto,
Que, mesmo em face do maior encanto,
Dele se encante mais meu pensamento.”
Primeiro passo: definir o número de frases; em seguida, o número de orações em cada uma das frases; e, por fim, definir cada termo estruturador de cada oração. Assim, procede-se a uma operação lógica por dedução, ou seja, partindo-se do geral para o particular como se faz com um axioma matemático.
Os limites da frase, pelo menos em língua portuguesa, de regra, são definidos por pontuação fonética, na fala; por pontuação gráfica, na escrita. Assim, fica fácil ver que o quarteto supra está assentado em uma só frase. Pronto. E agora?  É olhar para o quarteto supra e ver que ele está se referindo a alguém que diz que será atento a alguma coisa; será atento com muito zelo, será atento sempre, e será excessivamente atento. Desse advérbio exprimindo fortíssima intensidade, resultará uma consequência. E aí, salta aos olhos um paradoxo belíssimo expresso por aquele que se declara, em forma de compromisso, alguma coisa a alguém.
Vamos lá, vamos arrumar o pensamento para fruir a beleza que dele dimana? Pois bem.
Primeira ideia: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO;
Segunda ideia: EU SEREI ATENDT AO MEU AMOR SEMPRE;
Terceira ideia: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR COM TAMANHO ZELO;
Quarta ideia: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR DE TAL FORMA;

E tome a consequência: QUE, AINDA QUE EU ME ENCONTRE EM FACE DE UM ENCANTO INDEFINÍVEL, MEU PENSAMENTO MAIS SE ENCANTARÁ DO MEU AMOR...  Ufa! Daí para a frente o tom do soneto assume a mesma pontuação lírico-confessional como sói acontecer no discurso de menestréis, trovadores e boêmios...
Continuamos a conversa. De repente, Nascimento olha para mim e diz: “companheiro Hugo, a língua é fácil; a munheca do povo é que é dura”. E dizendo isso, puxou do bolso um prospecto e pediu-me que lesse. Lá estava: COLAÇÃO DE GRAU ESPECIAL. Com efeito, a construção peca por resvalar na sintaxe de colocação. Aqueles alunos que perdem a data da Colação de Grau aprazada pela instituição devem fazê-lo depois, em data específica, junto ao reitor. Trata-se de solenidade de COLAÇÃO ESPECIAL DE GRAU. Fácil, não? Não é o grau que é especial, mas a solenidade da colação...
Voltaremos com o Ministro Celso de Melo, do Supremo Tribunal Federal...











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