sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

REFLEXÃO NADA NATALINA

Hugo Martins

Cumprindo dever escolar, demos início, hoje, à leitura da obra A TRADUÇÃO e a LETRA ou O ALBERGUE DO LONGÍNQUO, do francês Antoine Berman.
Lidas as notas de tradutores e outras explicações, deixamos de lado qualquer comentário sobre o teor da obra e acerca do que ela problematiza. Ao findar a leitura dela em sua totalidade, voltaremos para expor algumas questões tocantes  à teoria da tradução, assunto que vimos discutindo na disciplina Latim VI, que cursamos com grande alegria na UFC.
Interessa-nos, no momento, tecer considerações de natureza etimológica da primeira palavra do título da obra e verificar sua fortuna léxica na língua portuguesa. Mero ludus, mero play, mero jogo, mera brincadeira para recrear intelectualmente o espírito, que teima em não aderir ao que está por aí no mundo da indústria cultural. Epa! lá venho eu com a mania de fazer filosofices... Vamos voltar ao etimológico, à "palavramundo", às rutilâncias semânticas e históricas, de que vêm grávidas as palavras. Vamos a elas.
A palavra tradução deriva do verbo latino DUCERE, que encerra o significado de CONDUZIR, COMANDAR, LEVAR.. Seu radical é DUC, com a variante DUZ. Quem gosta de ler História sabe que o ditador Benito Mussolini era conhecido como o GRANDE DUCE, o comandante maior das atrocidades provindas do fascismo. Um OLEODUTO transporta, conduz óleo. Já um AQUEDUTO serve de canal para levar água. Por aqui, é mais fácil chegar à acepção mais funda de algumas palavras portuguesas em cuja estrutura mórfica (forma, corpo) se encontram aqueles radicais DUC/DUZ. Vamos lá, lembrando que as partículas que o antecedem são prefixos latinas. Assim, temos:PRODUZIR é levar para adiante; REDUZIR é trazer para trás; INDUZIR é levar para dentro; CONDUZIR é levar consigo; TRADUZIR é levar à frente. Observar  que, com a substantivação de qualquer dos verbos em caixa alta, o radical assume  forma variante DUÇ, como em tradução, produção e indução...
A palavra tradução equivale a translation, em inglês. Aqui, suprimido o prefixo TRANS (forma variante de TRAS), temos LATION, elemento provindo do latim LATUM, que corresponde aqui ao DUZ. Assim, traduzir supõe o sujeito levar de uma cultura para outra um conteúdo, recorrendo a um duplo meio de transporte: a língua de origem e a língua de chegada. Por isso, muito cuidado? A tarefa requer seriedade. O condutor não deve ater-se apenas ao trocar uma grafia por outra, observando a correspondência semântica. Não. Deve estar de olho aberto. As língua têm suas peculiaridades e sofrem profundas influências da cultura a que servem. Desse modo, o tradutor deve investir-se de todos os aspectos culturais (históricos, linguísticos, antropológicos), além da visão de mundo do autor da obra.
Embora existam várias teorias acerca da tradução, cremos que a encontrada na obra acima intitulada guarda a preocupação de o autor fazer como que um novo texto, uma reescritura da obra, levando em conta aqueles aspectos culturais referidos aqui, procurando encontrar correspondência com os mesmos, que devem estar presentes na língua de chegada. Não se trata de disvirtuar o que o autor da língua de origem disse, mas delicada e inteligentemente ajustá-lo ao modo de ser da língua de chegada... Abaixo, pois, o IPSIS LITTERIS (com as mesmas letras).
A propósito, para não mais estender o texto, voltaremos com considerações similares respeitantes à palavra LETRA, também presente no título da obra...
A leitura efetiva da obra poderá esclarecer nossa preleitura aqui calcada, pobremente,  no título.
Questão de tempo...

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