PSICODELISMO PEDAGÓGICO
Hugo Martins
Lembra-me, ainda menino de calças curtas e suspensórios, que o aluno, antes de ingressar na universidade, enfrentava, depois de alfabetizado, cinco anos no curso primário, quatro no curso ginasial e três no curso científico ou no curso clássico. Para ingressar no curso ginasial, submetia-se a provas do famigerado Curso de Admissão ao Ginásio. Findo o ginasial, podia optar pelo Curso Científico, se pretendesse seguir curso universitário voltado para as áreas de ciências químicas, biológicas ou físico-matemáticas. Se optasse pelo Curso Clássico, seguiria carreira nas chamadas humanidades. Ainda havia o Curso Normal, que preparava as meninas que desejassem dar aulas no curso primário. Na época, a língua latina, as línguas francesa e inglesa, bem como a sociologia e a filosofia eram matérias de ensino obrigatório.
Com a Redentora de 1964, aquela estrutura sofreu reformulação: aboliu-se um ano do antigo primário, passando o quinto ano a fazer parte do ginásio, que ia até a oitava série. Aboliu-se o Curso Clássico, retiraram-se as disciplina filosofia e sociologia e criou-se o chamado ensino profissionalizante, calcado no ideário da educação norte-americana, saído de um aborto pedagógico bem brasileiro. Além de Educação Artística, o aluno devia seguir carreiras como técnico em contabilidade ou analista de laboratório... Uma gracinha. Criou-se a disciplina OSPB (Organização Social e Política do Brasil) com a viva pretensão de repassar a doutrina do "eu te amo meu Brasil" , nos colégios, e o repasse cínico da doutrina da Escola Superior de Guerra, nas universidades, nas aulas chamadas Estudos de Problemas Brasileiros. Que não se esqueçam das aulas de Moral e Cívica, num país de imoralidades e amoralidades. Uma gracinha. Tudo. Menos isso era levado às aulas, de regra, ministradas por militares ou simpatizantes desse teatro patrioteiro.
Depois criaram o Curso Fundamental e o Curso Médio, sem novidade alguma. Apenas criaram mais um ano no fundamental como para compensar o ano suprimido antes. Tanto é que hoje existe a nona série.
Confesso minha crassa ignorância em relação ao que vem por aí em matéria de mais um arroubo reformista. Ouve-se falar na criação da figura do professor de "reconhecido saber"... Só o que me calou mais fundo na alma. Que diabos vem a ser essa coisa numa época de febris especializações e raros enciclopedismos? Será mais uma peça que se vai pregar nos educandos? É difícil encontrar professores merecedores daquela tarja tão pesada. Houve um tempo aqui no Brasil em que isso era factível, sobretudo porque ser professor não era para qualquer um, sem preconceito. Estudar no Colégio Pedro Segundo, no Rio de Janeiro, era estudar língua portuguesa com Tasso da Silveira, literatura com Manuel Bandeira, história com Capistrano de Abreu, Filosofia com Raimundo Farias Brito ou Sílvio Romero. Havia, de fato, um "reconhecido saber". A remuneração do professor era outra coisa bem diferente. Ser professor não era "mero sacerdócio" como defendia um político de visão tacanha, que muito lembra as posturas de um irmão boquirroto, indelicado e fanfarrão. Ser professor hoje é render-se à escravidão, é ministrar um sem número de aulas que lhe tiram o tempo para estudar e pensar as aulas. Os governantes, no Brasil, de todos os tempos e lugares olham para o professor como mão de obra de grande reserva, há-os em excesso, afinal qualquer um pode ser professor no cabaré nacional.
Com a criação da figura do "reconhecido saber" vem o estímulo: se alguém não sabe fazer nada, que vá ser professor, meu caro... Estamos no Brasil... Mais alguma coisa a acrescentar? Sim. Que se convoquem logo os exércitos de doutos portadores do tal "reconhecido saber"! A juventude, penhorada, agradece.
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