PEQUENO
ENSAIO SOBRE A INUTILIDADE DAS PERMANÊNCIAS
Hugo Martins
Em conversa informal,
um dos presentes pergunta se o verbo” caguetar” está certo ou errado quando o
empregamos no sentido de dedurar alguém. Não só é devidamente aceito como
também já se encontra dicionarizado. Disse-lhe que, se persistisse a folhear bons dicionários (Aurélio, Houais...), iria
encontrar também a forma “cabuetar” , de largo uso no cotidiano do falante
nordestino. Ambos os registros constituem a corruptela do verbo “alcaguetar”.
Assim, temos a série do paradigma nominal: “cagueta ou caguete”, “cabueta” e “alcagüete”...
São, pois, formas variantes, mais aceitas ou menos aceitas. Nas questões
lingüísticas, o certo ou o errado não constituem conceitos absolutos. Isso é coisa da tradição
greco-romana, cujos gramáticos, por razões compreensíveis, só legitimavam as
formas e construções advindas dos escritores renomadas. Vezo das gramáticas
ocidentais. Tudo muda, tudo passa, tudo se transforma. “Nihil novi sub sole” (nada de novo sob o sol). Por isso, é
aconselhável que tenhamos como referencial a norma ou uso a que se referem os
lingüistas. Observe-se que o gramático diz que o correto é “assistir AO jogo”.
Ora, entre cem brasileiros, no uso espontâneo da expressão, 95 dirão “assistir
O jogo”. O sujeito sempre “chega EM casa”, mas o autoritarismo gramatical manda
que ele “chegue A casa”... Bárbaro era, para os gregos, aqueles que não falavam
grego, portanto, assim se expressavam” bá, bá, bá, bá”. Para os romanos, bárbaro
era todo aquele que habitava além das fronteiras do império romano. Aquela
turma além-fronteira costumava atacar os romanos e exigir-lhes tributos
escorchantes (“ai dos vencidos”). Para isso, muitas vezes, recorriam à
violência atroz e sanguinolenta. Daí, bárbaro passou a significar também alguém
impiedoso e sanguinário (hunos, godos, visigodos, ostrogodos, gauleses). Nos
anos 60, para a Jovem Guarda, bárbaro denotava tudo aquilo que estivesse
consentâneo com a moda, hábitos e gostos da juventude de então...
Por falar em juventude,
a hodierna, de linguagem pródiga e rico vocabulário, de algum tempo, vem usando
duas locuções para designar algo bom e, em contraposição, algo não bom. Temos:
“massa” e “mó paia”. Diante de um belo filme, o sujeito brada: “massa”,
brother! Se a película não lhe cai no gosto, diz, decepcionado e irônico: “mó
paia”, mermão! Ambos os sintagmas pertencem ao vocabulário de quem vende e faz
uso da maconha. Se esta é de má qualidade, é porque está misturada com outras
ervas que não o cânhamo puro, a aliamba, a diamba, o haxixe. Se, ao contrário,
a substância se assemelhar a cocô seco de cachorro, por não receber qualquer
mistura, aí, “cumpade”, a “coisa” é “massa”. Pronto, dentro de algum tempo,
estarão tais expressões incorporadas ao vocabulário dicionarizado e na boca do
povo “porque ele é que fala gostoso o português do Brasil. Ao passo que nós o
que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”. O aspeado pertence a Manuel
Bandeira no poema Evocação do Recife, poema que faz parte do livro Libertinagem...
Toda palavra, não
importa qual, já foi, um dia, um neologismo...
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