sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

HORA DO POBRE OU INVASÃO
                                                                              Hugo Martins

Um dia desses, fui fazer um passeio sentimental na velha Gentilândia de minha infância. Desci do ônibus na Av. Treze de Maio, atravessei a praça em frente à Residência Universitária e enveredei pela Rua João Gentil, no meu tempo, São José do Tauape. Passei em frente à casa de um garoto de nome Mocico, atravessei a Padre Francisco Pinto e cheguei a uma travessa onde ficava o Grupo Escolar Padre Anchieta, onde cursei o terceiro ano primário e onde, no recreio disputava partidas de gol-a-gol com um colega de nome Antonio Livramento Na esquina da travessa com a Rua São José do Tauape, morava um rapazola branquicela, alourado, de grandes olhos verdes, torcedor empedernido do Ceará e que costumava “bater racha” em frente à minha casa na então Rua Rodolfo Teófilo, hoje Waldery Uchoa. Seu nome era Jordane. Havia em frente à casa um gramado, bem como um cercado de muro derrubado em que a moçada “batia pelada.” Ainda na São José do Tauape, morava o garoto Glilson, mais à frente,  Rogério e seu irmão Jório; logo adiante, uma família apaixonada pelo Fortaleza e pelo Fluminense. Daquela família, lembro-me de Carlos Castilho e Chico, de apelido Esquerdinha. Este era muito habilidoso com a bola nos pés e tinha uma visão ampla do jogo. Na Adolfo Herbster, havia o campo da Rua Júlio César, onde não cansávamos de “rachar” quase todas as tardes... Próximo ao campo, morava um grupo de irmãos, cujos nomes parecem ter sido inspirados na cultura romana: Taciano, Tácito, Tacito. Os outros eram Roberto Jupi e Veinho. Não lembro o nome de Veinho no momento. Sei tratar-se de um sujeito de espírito brincalhão, que costumava pôr apelido em Deus e o mundo. Eu mesmo recebi um apelido que “pegou” durante toda a minha vida. A turma me chamava de Frei Papinha ou Papinha . Quem, à época, assistiu ao filme Macelinho Pão e Vinho sabe o porquê do apelido. Meu cabelo era cortado à moda Cascão: raspado do lado e, no alto da cabeça, uma porção de cabelos lisos, com uma pastinha... Naquele tempo tal estilo de corte recebia o nome de Principe de Gales... É mole??
Essa história que estou contando, foi levada a efeito, numa tarde, na casa de nosso amigo Cristiano Santos, durante uma conversa regada a um cafezinho coado na hora. Na ocasião, surgiram outras lembranças marcantes daqueles tempos.
Em dado momento, veio à tona o futebol, sobretudo o praticado no velho PV. Na época, ainda não havia esse intercâmbio nacional tão comum hoje em virtude das políticas esportivas de campeonatos de toda ordem, e pela influência dos meios de comunicação de massa. De tempos em tempos, vinha um time do Rio ou de São Paulo jogar por aqui. Era uma festa, era uma novidade que ouriçava a meninada, que não media esforços para ver de perto jogadores que só conhecia nas publicações como Revista dos Esportes e Manchete Esportiva. Quando não, nos cartazes afixados lá no Pedão da Bananada no Abrigo Central...
O grande sofrimento da garotada era entrar no estádio. Por ser curto o dinheiro, a “negada” não media esforços para isso. Ficar na porta do Presidente Vargas a ouvir o rumor da torcida e não poder estar lá, assistindo às tiradas dos craques, aos voos do Caravele, às patadas de BCC, à maestria de Damasceno, aos gritos histéricos de torcedores apaixonados, com o radinho de pilha acompanhando o programa Bola de Meia, tudo era muito doloroso. Resignar-se? Nunca. Solução: “pular o muro”. O vigia não dava trégua. A frustração era compensada pelo entoar de um coro de músicas ofensivas à pobre mãe do vigia ou ao próprio vigia. Uma delas dizia: “O galo canta, o macaco assovia, ... de jumento .. .. do vigia.” Tempo bom aqueles. Que fazer? Desistir? Só havia uma solução: voltar para frente do PV, estirar o olho pidão para o porteiro ou confiar na passagem de “alguém importante” ou influente ou amigo, que se compadecesse do drama daquele infeliz. “Enquanto a bola dança, o tempo avança”, e nós aqui fora. A fazer o quê? A única coisa possível para satisfazer a expectativa: esperar “a hora do pobre” ou “a invasão”. Faltando dez minutos para terminar o jogo, era uma estimativa que se fazia, aquele magote de meninos se amontoava nas proximidades do portão – não havia ainda as borboletas – só as mariposas que brincavam com a lâmpada do poste da pracinha em frente ao PV. Havia empurra-empurra, olhares desconfiados, ânsias e esperança de que o portão fosse logo aberto. Até que enfim o momento esperado chegava. A correria parecia uma disputa esportiva, uma corrida de retirantes da seca em direção à parca comida para todos... Era o alívio de uma grande tensão daquelas alminhas... Se hoje “não tem mais isso não”, resta o doce consolo de lembrar a alegria, de ver que o tempo não passou em vão, de poetizar um tempo que valeu a pena ser vivido.


Nenhum comentário:

Postar um comentário