Ser
pesado, Ser leve
Hugo
Martins
Vinha caminhando no
rumo de casa pela Barão de Studart e me peguei achando graça. Nenhum laivo de
loucura, apenas uma breve incursão nos tempos de menino, ocasião em que
intuímos a tal felicidade, essa coisa impalpável e imponderável, sustentada
pela “leveza do ser” ou, quem sabe pela falta de leveza do Ser.
Lembrei um tempo em
que, nas festas juninas, pegávamos uma pequena caixa de madeira, improvisávamos
nela algumas prateleiras, atochávamos de fogos de toda espécie e saíamos pelas
ruas a fazer pregões: “iôô os fogos!” “vai a rasga-lata!”, “vai o traque
alemão!”, “vai a bomba de parede”! Quando aparecia um freguês, encostávamos a
pequena caixeta, que era dotada de pernas, e fazíamos o negócio. Muitas vezes
sofríamos ameaças de meninos maiores: de termos a caixa explodida.
Quando o menino era do mesmo tope, aí, meu filho, a coisa podia terminar em briga. Tudo por causa da discordância no preço. Nesse momento, em que desenvolvo este texto, estou às gargalhadas, lembrando daquele tempo.
Quando o menino era do mesmo tope, aí, meu filho, a coisa podia terminar em briga. Tudo por causa da discordância no preço. Nesse momento, em que desenvolvo este texto, estou às gargalhadas, lembrando daquele tempo.
Lembrei um tempo, o das
festas de Santos Reis, época em que a meninada parava diante das casas a entoar
músicas, como a pedir esmolas. Eu não entendia nadica de nada. Apenas
participava, pois, ao fim, ganhavam-se alguns trocados ou (que coisa!) a
família abria as portas da casa para todos. Refestelávamo-nos nas poltronas e
cadeiras alheias e participávamos de comes e bebes, que o dono da casa nos
oferecia com larga prodigalidade. Depois, saíamos a cantar em frente de outras
casas. Quando não alcançávamos êxito, por ser o pessoal da casa somítico, entoávamos:
“Seu pão-duro, vivo bem, até agora nunca precisei de ninguém.” Coisa de
menino... A música cantada para conquistar as boas graças nas casas por onde
passávamos assim dizia: “Ò senhor dono da casa, abra a porta e acenda a luz;
abra a porta e acenda a luz pelo nome de Jesus”! Se se conseguia alguma coisa
como dinheiro, comida, por exemplo, vinha o agradecimento: “Esta casa está bem
feita, por dentro, por fora não; por dentro, cravo de rosas; por fora,
manjericão.” Muito bom e saudoso aquele tempo. Por isso, quando vinha rindo, a
pensar nessas coisas gratuitas, embora passadas e recuperáveis tão só pela
memória, é que me veio a reflexão de que a tal felicidade não pode ser
conceituada, tampouco discutida a sua existência... Só sentida... Como tantos -
ver Epicuro - estou sendo pretensioso assim refletindo, pois há um jogo
dialético na linguagem que reduz toda reflexão a pitadas de absolutização e
pitadas de relativização. Além do mais há dados histórico-culturais debuxando
posturas mentais e visões de mundo. Ainda assim, coloco a questão da felicidade
nas instâncias feéricas da infância... Os deuses do Olimpo hão de me perdoar
essa incursão pretensiosa no refletir sobre questões não afetas só a psicólogos
e a pensadores ocasionais.
Fernando Pessoa, poeta
português, dizia: “o que em mim sente está pensando”, postura poético-mental
percebível no poema Ela Canta Pobre Ceifeira. De minha parte e pensando o poeta
luso, tão citado e tão pouco lido, digo como o “povão”: pensou, morreu! Pensar
é trágico. Sentir nada compromete. Ainda estou rindo da gratuidade
despretensiosa, sentindo aqueles tempos liricamente cantados por Ataulfo Alves
e Mário Lago...
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