TRAVESSURAS.
Hugo
Martins
Muitas traquinadas
fazíamos. Não havia sentimento de culpa, só o medo de chegar aos ouvidos dos
pais quando a coisa ultrapassava as raias do aceitável. Furtar frutas no
quintal do vizinho, enfrentando o medo de levar um tiro de sal era coisa que
cheirava a aventura digna de figurar em qualquer almanaque de heróis. Colocar
uma pedra sob uma caixa de papelão, aquelas de sapatos, no meio da calçada e
ficar alimentando a certeza de que o primeiro menino que a visse certamente
nela meteria esplêndido chute era um jogo sádico dos melhores. Ficar numa
esquina, amarrar uma cédula na ponta de uma linha de costura, colocar a cédula
numa distância considerável, e esperar que alguém a alcançasse enquanto a linha
era paulatinamente puxada, também constituía um jogo que divertia a meninada.
Havia, porém, uma brincadeira que era extremamente reprovável pelo grau de
maldade e de mau gosto que encerrava. A única desculpa é que fazia parte das
brincadeiras da meninada daquele tempo. Ou, por que não, do sadismo ínsito a todo
ser humano... Tem gosto escatológico, tom agressivo e encerrava a vontade
consciente de expor alguém à ridicularia e ao riso patife de quem cometeu o
pecadilho.
Como se dava a coisa?
Formávamos o grupo dos “moleques da Cachorra Magra” (Rua Marechal Deodoro).
Promovia-se a reunião numa das muitas esquinas, e se discutia o que fazer, de
preferência contra meninos de outras ruas (lembrei-me da turma da Zona Norte
nas revistas Bolinha e Luluzinha). Dividiam-se as tarefas: um arranjava um pedaço
de pau, um cabo de vassoura, por exemplo, servia; outro ficava com a
incumbência de arranjar matéria fecal humana e, com esta, untar, o pedaço de
pau. Isso feito, saía o grupo à procura de uma “vitima”, de regra um moleque,
nunca pessoas adultas. Simulava-se uma briga. A “vítima” se aproximava e ficava
a assistir à “discussão”, que assim se desenrolava: “Quer brigar, porra? Pois
vamos lá”. O outro, tão pilantra quanto o primeiro, de posse da “arma”
contundente, dizia: “Pois eu quero, Vamos”. O “desafiante”, então, dizia: “Tu
só estás dando uma de valente porque está com esse pau.” Solta, e aí tu vais
ver o que é bom pra tosse.” Nesse momento, o segundo safardana se virava pra “vítima”,
estirava o braço que sustinha o pau e dizia: “Segura aí, rapaz!”Feita a
patifaria, o grupo “metia o pé na carreira”, enquanto o infeliz moleque,
atônito e impotente, ficava a olhar para a mão. Na rua mal-iluminada, no
atropelo de gente correndo, ecoavam gargalhadas semelhantes àquelas dos
malandros, dos pastores da noite dos romances de Jorge Amado. Era a brincadeira do “pau
cagado”, suja em todos os sentidos, mas tão próxima da natureza maligna com que
o ser humano tanto se identifica.
Essas coisas de menino me
vieram à cachola porque as vivenciei e devido à leitura que fiz do romancista
norte-americano Mark Twain, que escreveu duas obras imortais inspiradoras sobre
a infância: As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn. Ficam
como sugestão de leitura. Não se sabe se
despertam o mesmo interesse que as novelas globais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário