sábado, 20 de dezembro de 2014

TRAVESSURAS.
                                                                    Hugo Martins

Muitas traquinadas fazíamos. Não havia sentimento de culpa, só o medo de chegar aos ouvidos dos pais quando a coisa ultrapassava as raias do aceitável. Furtar frutas no quintal do vizinho, enfrentando o medo de levar um tiro de sal era coisa que cheirava a aventura digna de figurar em qualquer almanaque de heróis. Colocar uma pedra sob uma caixa de papelão, aquelas de sapatos, no meio da calçada e ficar alimentando a certeza de que o primeiro menino que a visse certamente nela meteria esplêndido chute era um jogo sádico dos melhores. Ficar numa esquina, amarrar uma cédula na ponta de uma linha de costura, colocar a cédula numa distância considerável, e esperar que alguém a alcançasse enquanto a linha era paulatinamente puxada, também constituía um jogo que divertia a meninada. Havia, porém, uma brincadeira que era extremamente reprovável pelo grau de maldade e de mau gosto que encerrava. A única desculpa é que fazia parte das brincadeiras da meninada daquele tempo. Ou, por que não, do sadismo ínsito a todo ser humano... Tem gosto escatológico, tom agressivo e encerrava a vontade consciente de expor alguém à ridicularia e ao riso patife de quem cometeu o pecadilho.
Como se dava a coisa? Formávamos o grupo dos “moleques da Cachorra Magra” (Rua Marechal Deodoro). Promovia-se a reunião numa das muitas esquinas, e se discutia o que fazer, de preferência contra meninos de outras ruas (lembrei-me da turma da Zona Norte nas revistas Bolinha e Luluzinha).  Dividiam-se as tarefas: um arranjava um pedaço de pau, um cabo de vassoura, por exemplo, servia; outro ficava com a incumbência de arranjar matéria fecal humana e, com esta, untar, o pedaço de pau. Isso feito, saía o grupo à procura de uma “vitima”, de regra um moleque, nunca pessoas adultas. Simulava-se uma briga. A “vítima” se aproximava e ficava a assistir à “discussão”, que assim se desenrolava: “Quer brigar, porra? Pois vamos lá”. O outro, tão pilantra quanto o primeiro, de posse da “arma” contundente, dizia: “Pois eu quero, Vamos”. O “desafiante”, então, dizia: “Tu só estás dando uma de valente porque está com esse pau.” Solta, e aí tu vais ver o que é bom pra tosse.” Nesse momento, o segundo safardana se virava pra “vítima”, estirava o braço que sustinha o pau e dizia: “Segura aí, rapaz!”Feita a patifaria, o grupo “metia o pé na carreira”, enquanto o infeliz moleque, atônito e impotente, ficava a olhar para a mão. Na rua mal-iluminada, no atropelo de gente correndo, ecoavam gargalhadas semelhantes àquelas dos malandros, dos pastores da noite dos romances de  Jorge Amado. Era a brincadeira do “pau cagado”, suja em todos os sentidos, mas tão próxima da natureza maligna com que o ser humano tanto se identifica.

Essas coisas de menino me vieram à cachola porque as vivenciei e devido à leitura que fiz do romancista norte-americano Mark Twain, que escreveu duas obras imortais inspiradoras sobre a infância: As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn. Ficam como sugestão de leitura.  Não se sabe se despertam o mesmo interesse que as novelas globais.

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