terça-feira, 30 de dezembro de 2014

VERSO E LEITURA.
                                                          Hugo Martins
Olavo Bilac escreveu dois poemas famosos, espécie de diretrizes ao poeta filiado à estética parnasiana. O primeiro é o longo poema Profissão de Fé; o outro é o soneto A Um Poeta. Em ambos, o conteúdo não assume a mesma importância que a forma, sobretudo aquela que se aproxima da perfeição do ideário da escola a que também se filiaram Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira e Vicente de Carvalho. A doutrina da chamada “arte pela arte” deixa entrever essa idéia da busca infrene pela perfeição formal, que é traduzida na métrica, na rima e na escolha do vocabulário...
Vamos transcrever o primeiro quarteto do soneto referido, texto que aparentemente  oferece dificuldade de leitura. No entanto, desvendado o vocabulário e aplicadas as regras sintáticas de colocação, de concordância e de regência, o espírito do texto se elucida, claro como as manhãs das auroras claras.  Já dissemos do título, que aponta para um destinatário filiado ao Parnasianismo.
                                              A UM POETA
                                   Longe do estéril turbilhão da rua,
                                   Beneditino, escreve! No aconchego
                                   Do claustro, na paciência, no sossego,
                                   Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Transpondo para a ordem direta. Há duas frases no texto: a primeira, que vai de “Longe” a “escreve”. O restante constitui a segunda frase. Leiamos a primeira. Observar que o verbo “escrever      se encontra na segunda pessoa do singular do modo imperativo, portanto, a pessoa a que se refere é o pronome pessoal tu. “Beneditino” é mero vocativo, que pode ser colocado em qualquer lugar da frase, pois não mantém vínculo sintático com nenhum outro termo. Seu vínculo é meramente semântico. Assim temos: “Escreve tu, Beneditino, longe do estéril turbilhão da rua.” Bilac compara o poeta, quando escreve, a um monge beneditino, isolado do mundo e, por isso, (longe) distante de qualquer influência que não seja tão só o fazer poético A poesia parnasiana não deve estar atrelada a questões outras a não ser a essa quase obsessão pela forma, já aqui resaltada.
Observar que os verbos da segunda frase se encontram no mesmo modo e pessoa que o verbo “escrever” da primeira. A leitura deve começar por eles, que, repita-se, fazem alusão ao pronome pessoal tu. Assim temos: “Beneditino, trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua no aconchego do claustro, na paciência, no sossego”. A tarefa do poeta deve ser levada a efeito, estando ele distanciado de tudo, escrevendo paciente e sossegadamente. A repetição da conjunção “E”, no último verso (polissíndeto), sugere o que dizem as formas verbais TRABALHAR, TEIMAR, LIMAR, SOFRER, SUAR. É a luta insana do poeta, trabalhando, perseverando, desbastando excessos, sofrendo e despendendo muito esforço para alcançar o a pureza formal. O poeta parnasiano padece daquilo que Gustave Flaubert, escritor francês, chamava de “a angústia da forma.” É próprio de todo artista a busca, a luta, a angústia, o debater-se com o dizer. Ainda assim, a maioria não fica satisfeita. “Lutar com palavras/é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”, no dizer de Drummond de Andrade.
Essa luta com a expressão é divertida. Torna-se menos árdua quando o indivíduo coloca como divertimento diuturno a leitura, a leitura, a leitura, a leitura. Não se necessita das regras mágicas do “professor de redação”. Machado de Assis, Monteiro Lobato, Olavo Bilac e os grandes escritores de modo geral nunca tiveram professor de redação... Eram empedernidos leitores de tudo que lhes caía nas mãos.
SIMPLIFICANDO:
BENEDITINO, ESCREVE LONGE DO TURBILHÃO ESTÉRIL DA RUA.
BENEDITINO, TRABALHA, E TEIMA, E LIMA E SOFRE E SUA NO ACONCHEGO DO CLAUSTRO, NA PACIÊNCIA E NO SOSSEGO.

Voilà.

Simples, não?

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