quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NE SUTOR ULTRA CREPIDAM (sapateiro, não vá além das sandálias)
                                                    Hugo Martins

Dia 1º de janeiro do ano entrante, despeço-me. Foram só oito anos. Também não continuo no posto porque a lei não permite. Caso contrário, não só eu mas também minha família continuaria no mesmo barco porque “navegar é preciso” rumo aos nossos projetos pessoais. Segundo uma ministra de triste figura e eterna feiúra, “o povo é apenas um detalhe”. E eu, do alto da empáfia própria de minha família, aduzo: continuará sendo ainda, por séculos, massa de manobra, pois, por ignorar o porquê dos fatos históricos, deixa-se levar por conversa fiada de que é tão pródigo um dos meus irmãos. Oito anos, não são oito dias. De uma coisa estou certo: deixei a impressão de haver realizado muito em benefício desse povo. Claro que a publicidade oficial cuidou disso. Nela, as escolas públicas do estado lembram as escolas norte-americanas vistas em fitas cinematográficas. Se se trata de propaganda sobre saúde, médicos, bem acomodados em salas modernamente aparelhadas, atendem sorridentes e cortesmente pacientes risonhos, em cujo semblante se espelha grata satisfação. A segurança é teatralizada pelo desfile de carros importados, dirigidos por soldados bem apessoados, que, em contato com a população, são todo ouvidos, lembram, com seus sorrisos e delicadeza, o cavalheirismo do ator Cary Grant nas fitas hollywoodianas... Sobre ensino superior, cuidei de evitar levar à publicidade, pois pouco me interessou o desempenho das universidades públicas do estado. Elas são coisa de somenos importância.
No fundo da consciência, porém, meu diabinho interior me espicaça a razão e insiste em que eu seja verdadeiro, que reconheça o fracasso por que passaram, durante minha gestão, a educação e a saúde. E espeta-me a bunda com seu longo e incandescente tridente, obrigando-me a reconhecer que a segurança pública é assunto jogado às traças, pois, conforme dados estatísticos, enquanto estive à frente da administração, o cometimento de crimes contra a vida e contra o patrimônio só tendeu a aumentar. Quis estrebuchar, mas o diabinho, diabolicamente, persuadiu-me a reconhecer, também, que meu maior projeto era destruir as universidades públicas estaduais. Para isso, metia minha colher em tudo, até mesmo na autonomia didático-pedagógica delas, pois a financeira e administrativa sempre ficaram sob meu tacão autoritário. Só não consegui meu intento por que elas não me pertencem, são propriedade do povo. Além do mais, intentei não cumprir comando sentencial em que se reconhecem legítimos interesses da classe docente.

A minha despedida é meramente simbólica. Saio de um vestíbulo e entro noutro. Não “saio da vida para entrar na história”. Continuo na história, agora para fazer algo que me é absolutamente desconhecido. Anísio Teixeira, Paulo Freire, Lauro de Oliveira Lima e Darcy Ribeiro fossem vivos, seriam, num governo de vergonha, os nomes indicados para a empreitada. Qualquer deles. Afora esses, as universidades brasileiras estão abarrotadas de pessoas mais entendidas e preparadas do que eu para exercer o ofício. Há educadores com reconhecido preparo às carradas No entanto a presidente da República escolheu a mim, doa a quem doer. Afinal, no banquete político ainda está em voga a máxima atribuída a São Francisco de Assis. Pra que competência e preparo nessa terra tupiniquim de tantas torpezas e tantos desencantos? Faço parte desse jogo. Às favas a ética. EU estou preparado... EU tenho a força. Educar é preciso, estar preparado não é preciso. Meu nome deveria ser Narciso, mas o povo sabe quem eu sou...

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