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SUTOR ULTRA CREPIDAM (sapateiro, não vá além das sandálias)
Hugo Martins
Dia 1º de janeiro do
ano entrante, despeço-me. Foram só oito anos. Também não continuo no posto
porque a lei não permite. Caso contrário, não só eu mas também minha família
continuaria no mesmo barco porque “navegar é preciso” rumo aos nossos projetos
pessoais. Segundo uma ministra de triste figura e eterna feiúra, “o povo é
apenas um detalhe”. E eu, do alto da empáfia própria de minha família, aduzo:
continuará sendo ainda, por séculos, massa de manobra, pois, por ignorar o
porquê dos fatos históricos, deixa-se levar por conversa fiada de que é tão
pródigo um dos meus irmãos. Oito anos, não são oito dias. De uma coisa estou
certo: deixei a impressão de haver realizado muito em benefício desse povo.
Claro que a publicidade oficial cuidou disso. Nela, as escolas públicas do
estado lembram as escolas norte-americanas vistas em fitas cinematográficas. Se
se trata de propaganda sobre saúde, médicos, bem acomodados em salas
modernamente aparelhadas, atendem sorridentes e cortesmente pacientes risonhos,
em cujo semblante se espelha grata satisfação. A segurança é teatralizada pelo
desfile de carros importados, dirigidos por soldados bem apessoados, que, em
contato com a população, são todo ouvidos, lembram, com seus sorrisos e
delicadeza, o cavalheirismo do ator Cary Grant nas fitas hollywoodianas... Sobre
ensino superior, cuidei de evitar levar à publicidade, pois pouco me interessou
o desempenho das universidades públicas do estado. Elas são coisa de somenos
importância.
No fundo da
consciência, porém, meu diabinho interior me espicaça a razão e insiste em que
eu seja verdadeiro, que reconheça o fracasso por que passaram, durante minha
gestão, a educação e a saúde. E espeta-me a bunda com seu longo e incandescente
tridente, obrigando-me a reconhecer que a segurança pública é assunto jogado às
traças, pois, conforme dados estatísticos, enquanto estive à frente da
administração, o cometimento de crimes contra a vida e contra o patrimônio só
tendeu a aumentar. Quis estrebuchar, mas o diabinho, diabolicamente,
persuadiu-me a reconhecer, também, que meu maior projeto era destruir as universidades
públicas estaduais. Para isso, metia minha colher em tudo, até mesmo na
autonomia didático-pedagógica delas, pois a financeira e administrativa sempre
ficaram sob meu tacão autoritário. Só não consegui meu intento por que elas não
me pertencem, são propriedade do povo. Além do mais, intentei não cumprir
comando sentencial em que se reconhecem legítimos interesses da classe docente.
A minha despedida é
meramente simbólica. Saio de um vestíbulo e entro noutro. Não “saio da vida
para entrar na história”. Continuo na história, agora para fazer algo que me é
absolutamente desconhecido. Anísio Teixeira, Paulo Freire, Lauro de Oliveira
Lima e Darcy Ribeiro fossem vivos, seriam, num governo de vergonha, os nomes
indicados para a empreitada. Qualquer deles. Afora esses, as universidades
brasileiras estão abarrotadas de pessoas mais entendidas e preparadas do que eu
para exercer o ofício. Há educadores com reconhecido preparo às carradas No
entanto a presidente da República escolheu a mim, doa a quem doer. Afinal, no
banquete político ainda está em voga a máxima atribuída a São Francisco de
Assis. Pra que competência e preparo nessa terra tupiniquim de tantas torpezas
e tantos desencantos? Faço parte desse jogo. Às favas a ética. EU estou
preparado... EU tenho a força. Educar é preciso, estar preparado não é preciso.
Meu nome deveria ser Narciso, mas o povo sabe quem eu sou...
Hugão! (com isso denuncio que fui teu aluno) Excelente crítica!
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