SÓ
O AMOR CONSTRÓI.
Hugo
Martins
Profundamente
emocionado... Isso só me ocorre quando me vejo diante de determinadas cenas da
chamada grande literatura: o olhar de Príamo para Aquiles, suplicando pelo
cadáver do filho Heitor; a emoção de Dante quando, no inferno, enxerga
Aristóteles reverenciado por outros pensadores; o espanto de Virgílio ao ler a
placa no limiar do inferno, exortando a todos que ali entrassem deixar de fora
todas as esperanças; a estupefação de Édipo quando descobre, em conversa com o
cego Tirésias, haver matado e próprio pai e ter casado com a mãe; o que ia no
espírito de Fabiano quando se viu obrigado a matar a cachorra Baleia; a decadência
por que passou Marcela, a diva interesseira de Brás Cubas; a narração do
inferno dantesco por Castro Alves na quarta parte do poema O Navio Negreiro; o
que devia passar pela cabeça de Raskolnikov no momento em que abriu em bandas,
com uma furiosa machadada, a cabeça de uma velhota para subtrair-lhe parcas
trinta moedas. Direi como um cantor “são tantas as emoções...”
Hoje, porém, quase
chego ao derramamento de copioso pranto. Vi-me diante de algo quase que
inenarrável tal o grau de humanização existente na coisa. Não se tratava do
lirismo de quintessência da Serenata de Schubert, tampouco a leveza mística de
alguma ária de Bach ou mesmo a universalidade brasílica da quinta bachiana de
Heitor Villa-Lobos. Não, meus amigos, a coisa atingia as raias do indizível, do
intraduzível, do inefável. Confesso que testemunhei uma das coisas mais sublimes
de quantas tenho visto no campo das artes, com especialidade na literatura e na
música.
Trata-se da
inquestionável preocupação de que foram tomados os comerciantes no Brasil
nessas épocas natalinas. Piedosos e sabedores da existência de uma grande leva
de devedores e inadimplentes, resolveu aquela misericordiosa classe encontrar
uma saída mágica capaz de persuadir, com todo o amor (palavrinha safada) de que
é capaz, aqueles infelizes a pagar
suas dívidas. Claro que os devedores beberão a fórmula mágica, pagarão com
juros aparentemente mais leves uma parte da dívida, continuarão devendo, mas
grande será seu galardão e sua recompensa: PODERÃO COMPRAR MAIS E MAIS DURANTE
AS FESTAS NATALINAS.
Realmente, “são muitas
as emoções” para quem pretende viver um Natal de paz, prosperidade e
felicidade.
Hoje ganhei meu dia:
larguei livros, “dei um chute no lirismo” e “fui ver a banda passar.”
Falando sério!
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