sábado, 13 de dezembro de 2014

SÓ O AMOR CONSTRÓI.
                                                         Hugo Martins

Profundamente emocionado... Isso só me ocorre quando me vejo diante de determinadas cenas da chamada grande literatura: o olhar de Príamo para Aquiles, suplicando pelo cadáver do filho Heitor; a emoção de Dante quando, no inferno, enxerga Aristóteles reverenciado por outros pensadores; o espanto de Virgílio ao ler a placa no limiar do inferno, exortando a todos que ali entrassem deixar de fora todas as esperanças; a estupefação de Édipo quando descobre, em conversa com o cego Tirésias, haver matado e próprio pai e ter casado com a mãe; o que ia no espírito de Fabiano quando se viu obrigado a matar a cachorra Baleia; a decadência por que passou Marcela, a diva interesseira de Brás Cubas; a narração do inferno dantesco por Castro Alves na quarta parte do poema O Navio Negreiro; o que devia passar pela cabeça de Raskolnikov no momento em que abriu em bandas, com uma furiosa machadada, a cabeça de uma velhota para subtrair-lhe parcas trinta moedas. Direi como um cantor “são tantas as emoções...”
Hoje, porém, quase chego ao derramamento de copioso pranto. Vi-me diante de algo quase que inenarrável tal o grau de humanização existente na coisa. Não se tratava do lirismo de quintessência da Serenata de Schubert, tampouco a leveza mística de alguma ária de Bach ou mesmo a universalidade brasílica da quinta bachiana de Heitor Villa-Lobos. Não, meus amigos, a coisa atingia as raias do indizível, do intraduzível, do inefável. Confesso que testemunhei uma das coisas mais sublimes de quantas tenho visto no campo das artes, com especialidade na literatura e na música.
Trata-se da inquestionável preocupação de que foram tomados os comerciantes no Brasil nessas épocas natalinas. Piedosos e sabedores da existência de uma grande leva de devedores e inadimplentes, resolveu aquela misericordiosa classe encontrar uma saída mágica capaz de persuadir, com todo o amor (palavrinha safada) de que é capaz,     aqueles infelizes a pagar suas dívidas. Claro que os devedores beberão a fórmula mágica, pagarão com juros aparentemente mais leves uma parte da dívida, continuarão devendo, mas grande será seu galardão e sua recompensa: PODERÃO COMPRAR MAIS E MAIS DURANTE AS FESTAS NATALINAS.
Realmente, “são muitas as emoções” para quem pretende viver um Natal de paz, prosperidade e felicidade.
Hoje ganhei meu dia: larguei livros, “dei um chute no lirismo” e “fui ver a banda passar.”
Falando sério!


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