SER
E NÃO-SER
Hugo
Martins
Nas redes sociais, as pessoas costumam postar fotos. De
regra, estão muito bem postas, cuidadosamente penteadas, abrindo-se em largos
sorrisos, presentes em lautas festas e grandes banquetes, bronzeando-se em
praias paradisíacas ou, simplesmente, olhando para o celular e fazendo aquele
biquinho não-se-sabe-bem-pra-quê. Logo abaixo da foto feliz, chovem curtições e
comentários, de regra, delicadamente laudatórios e, por vezes, travestidos de
uma linguagem que não respeita a verdade. Tenho visto nesse magote de posadoras
muita gente do meu conhecimento, supinamente feia, posando de cinderela.
Falta-lhes espontaneidade. Às vezes, o cabelo é esticado à custa de muito esforço;
as asperezas da pele escamoteadas por farta e cara maquilagem; o corpo,
apertado em espartilhos e por outras mágicas da indústria da tola vaidade.
Violação, pois, da ordem natural das coisas; inversão do que a natureza pôs e
dispôs...
Quando vejo algumas dessas “cocodículas”, dando uma de
atriz cinematográfica ou tomando como modelo atrizes globais e de outros redis
televisivos, fico a me perguntar: que haverá dentro dessas cabecinhas? Não
arrisco palpites, embora exista um rico cardápio de adjetivos, cujo espírito
poderia pôr às claras o que há de fingido, de mentiroso, de postiço e de falso
em tudo isso.
Intuindo a marcha inexorável do tempo, Cecília Meireles
pergunta num poema de sua lavra; “Em que espelho ficou perdida a minha face?” Bom refletir sobre a passagem do tempo e,
quando houver tempo, refletir sobre sua rapidez e os destroços que ele deixa em
nosso ser. Dizem não existir filosofia mais profunda que a dos espelhos, seja
os que estão à nossa frente a espicaçar nosso narcisismo, seja os encobertos
pelos refolhos de nossa alma.
Não vai aqui nenhuma apologia ao pessimismo. Creio que o
fundamental a que se refere Vinicius de Moraes em relação à beleza prende-se
àquela vislumbrada pela alma e revelada mais no Ser que no não-ser. O vazio dos
tempos de então obriga o homem a enxergar apenas miragens, e “O resto é
silêncio”...
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