domingo, 14 de dezembro de 2014

SER E NÃO-SER
                                                               Hugo Martins

            Nas redes sociais, as pessoas costumam postar fotos. De regra, estão muito bem postas, cuidadosamente penteadas, abrindo-se em largos sorrisos, presentes em lautas festas e grandes banquetes, bronzeando-se em praias paradisíacas ou, simplesmente, olhando para o celular e fazendo aquele biquinho não-se-sabe-bem-pra-quê. Logo abaixo da foto feliz, chovem curtições e comentários, de regra, delicadamente laudatórios e, por vezes, travestidos de uma linguagem que não respeita a verdade. Tenho visto nesse magote de posadoras muita gente do meu conhecimento, supinamente feia, posando de cinderela. Falta-lhes espontaneidade. Às vezes, o cabelo é esticado à custa de muito esforço; as asperezas da pele escamoteadas por farta e cara maquilagem; o corpo, apertado em espartilhos e por outras mágicas da indústria da tola vaidade. Violação, pois, da ordem natural das coisas; inversão do que a natureza pôs e dispôs...
            Quando vejo algumas dessas “cocodículas”, dando uma de atriz cinematográfica ou tomando como modelo atrizes globais e de outros redis televisivos, fico a me perguntar: que haverá dentro dessas cabecinhas? Não arrisco palpites, embora exista um rico cardápio de adjetivos, cujo espírito poderia pôr às claras o que há de fingido, de mentiroso, de postiço e de falso em tudo isso.
            Intuindo a marcha inexorável do tempo, Cecília Meireles pergunta num poema de sua lavra; “Em que espelho ficou perdida a minha face?”  Bom refletir sobre a passagem do tempo e, quando houver tempo, refletir sobre sua rapidez e os destroços que ele deixa em nosso ser. Dizem não existir filosofia mais profunda que a dos espelhos, seja os que estão à nossa frente a espicaçar nosso narcisismo, seja os encobertos pelos refolhos de nossa alma.
            Não vai aqui nenhuma apologia ao pessimismo. Creio que o fundamental a que se refere Vinicius de Moraes em relação à beleza prende-se àquela vislumbrada pela alma e revelada mais no Ser que no não-ser. O vazio dos tempos de então obriga o homem a enxergar apenas miragens, e “O resto é silêncio”...


Nenhum comentário:

Postar um comentário