FELIZ ANO NOVO:
SORRIA.
Hugo Martins
À
meia-noite do dia trinta e um de dezembro, as pessoas costumam desejar uma às
outras um novo ano, diferente do anterior. Em meio aos votos, de regra, ungidos
de muito álcool e do falso encantamento de queima de fogos e outros artifícios
para embair os tolos, ouve-se toda espécie de fervorosos augúrios. A
festividade, por evidente, é postiça, pois as mudanças ocorrem na interioridade
de cada um e não se dão pelo desejo supérfluo e pouco sincero de terceiros...
Virado o ano, nada muda: o mundo continua o mesmo, e as angústias cotidianas
continuam sua sempiterna tarefa de dilacerar almas a atormentar os espíritos,
maltratados pelo individualismo grosseiro e o egoísmo mórbido nosso de cada
dia. Aconselhável, nesse dia, a leitura de O Eclesiastes, conteúdo perturbador,
livro de cabeceira de Arthur Schopenhauer e Machado de Assis.
A
coisa começa pelo como pagar as dívidas, contraídas nos festejos natalinos; os
calotes vêm à tona, pois muita gente, narcotizada pelos cruciantes e insidiosos
comerciais, nem mesmo põe mais as mãos na cabeça, pois alimentam a certeza de
que os comerciantes darão um “jeitinho” para resolver o problema, medida certa
para manter em sôfrega atividade o exército desses consumidores compulsivos.
Coisa aparentemente sem importância, mas que angustia, afinal dever os outros
sem poder pagar, além de constituir descaramento sem igual, corrói a alma e
priva o devedor contumaz e costumeiro de adquirir coisas que lhe vão apaziguar a
alma pequena.
No
início do ano, surgem os fantasmas das despesas com material escolar, com o pagamento
de tributos relativos à compra (em 60 meses) do carro, também comprado a duras
penas, além do acerto com o IPTU e outros tributozinhos imperceptíveis, de cuja
existência poucos desconfiam. A violência urbana não deterá sua marcha enquanto
houver fome, miséria e descaso dos homens públicos; a injustiça social, mentora-mor
das iniquidades, que revoltam os que enxergam, continuará livre e solta para o
gáudio da classe política, muito satisfeita com a onda da alienação reinante.
Como
desejar, do mais fundo da alma, feliz ano novo num estado de coisas como esse?
Enquanto nos refestelamos em mesas fartas, soltando beijinhos, sorrisos e
abraços, lá fora há um clamor abafado, pedindo pelo menos um só dia novo, pleno
de satisfação, no decorrer de um ano, que nada tem de novo.
Bem
andou Sêneca, filósofo romano, filiado ao estoicismo, quando, em carta,
aconselhava o amigo Lucílio “a usufruir todas as alegrias”, a ele dizendo “que
a verdadeira alegria não emerge da satisfação e de prazeres superficiais, mas
de coisas profundas, de uma segurança transmitida por espírito sublime”.
“Verum
gaudium res severa est.” Traduzindo: A
verdadeira alegria é coisa séria.
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