MAIS
UM NATAL
Hugo Martins
O burguês de espírito
vulgar e estreito, o filisteu, costuma ter faniquitos e alimentar falsa
indignação quando lê textos em que se desanca a imagem do velhote de “triste
figura”, que, por certo, não é um Quixote, mas um fantoche que a indústria
cultural criou para engabelar as pobres crianças, não as crianças pobres, pois
estas não têm vez com o velho pançudo na noite do Natal, que, para elas, é
motivo de tristeza. Claro, a filosofia do consumismo, do eu posso comprar e do
eu posso presentear propicia essa atmosfera sombria em que o sentimento mais
abominável do homem vem à tona: a inveja “que baba...” e tudo do que dela
advém.
Enquanto o bom burguês
se banqueteia, troca sorrisos, dá presentes, recebe presentes, belisca quitutes
e bebe bom vinho, os pequenos ódios silenciosos carcomem almas desencantadas
pela mentira convencional do Natal. Quando o burguês infeliz dá presentes, de
regra vem o comentário: “foi caríssimo!” Aqueles que recebem presentes não
caríssimos olham desolados para a coisa e dizem, descaradamente: “lindo”,
“amei” e cuidam de desenhar no semblante aquele sorriso ensaiado para as
ocasiões próprias das festas natalinas e outras que tais. Em qualquer contexto,
essa história de trocar presentes nas noites natalinas é baixar o cachaço aos
comandos publicitários, alimentados pela sede de lucro de comerciantes
acostumados à postura bovina de consumidores ingênuos... e lisos.
Não se vá aqui tecer
considerações sobre os significados que se escondem por trás do signo tenebroso
do Natal. Há deles provindos de cabeças persuadidas pelos instrumentos da
indústria cultural, que redundam, de regra, em lugares-comuns, chavões batidos
e, quase sempre, traduzidos no palavreado oco e insípido, próprio de quem faz
leitura caolha do mundo. Outros há que enveredam no discurso aparentemente
teológico, pois suas falas, tal como no discurso político, encerram a mesma
mensagem da paz universal, da festa da fraternidade, do amor que deve unir os
homens e outras baboseiras afins, embora o noticiário veicule, todos os dias,
as maldades, o egoísmo, a perversidade, o pouco caso com a vida do outro, a
desumanidade atroz e sanguinolenta dessa triste humanidade, refestelada na e
acostumada com a sempre presente cruel hipocrisia.
Os demais discursos
filistinos provirão, na certa, dos centros oficiais largamente aceitos pela
grande massa. Algum padre de fala melíflua, discurso gosmento, cabeleira bem
assentada, vestido de acordo com os últimos figurinos da moda européia,
construirá mensagens de paz para todos os boquiabertos fieis, que dali saem com
a certeza de que sua alma estará salva nessa “noite feliz do Senhor Deus do
amor”! Algum pastor risonho e algum rabino sisudo também ensaiarão discurso
sábio, tão sensaborão quanto o daquele sacerdote jeitoso com as palavras. Todas
as falas serão tão pontuais quanto à missa do galo, o “chantclair” que, por
três vezes, anunciou a falta de fidelidade de Pedro com seu mestre. Haverá algo
do inconsciente nisso? Assunto para psicanalistas estudiosos e expertos e
espertos...
Discurso cínico?
Descaramento com as coisas divinas? Temor de ser espontâneo e encarar,
cristãmente essa festa tão bonita em que se homenageia um homem de coração
manso e transbordante de amor?
Nada disso. Se a
postura fosse cínica, na linha dos pensadores gregos Antístenes e Diógenes,
talvez o teatro do Natal não merecesse mais que um sorriso de desprezo; o Natal
não tangencia o divino em nada, não passa de um jogo cretinoide entre alguém
que vende e alguém que é persuadido a comprar, ainda que não tenha condições
para isso (que o digam o SPC e o CERASA); por fim, se o Cristo, o cordeiro da
paz, o anjo maior do amor voltasse a Terra e testemunhasse a pantomima do
Natal, com certeza empunharia o látego com que chicoteou os vendilhões do
templo e, sem dó nem piedade, lanharia costas e almas dessa casta de novos
fariseus e bradaria “afastai-vos de mim, vós que obrais a iniqüidade”.
Ho, ho, ho, ho, ho...
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