sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MAIS UM NATAL
                                                     Hugo Martins

O burguês de espírito vulgar e estreito, o filisteu, costuma ter faniquitos e alimentar falsa indignação quando lê textos em que se desanca a imagem do velhote de “triste figura”, que, por certo, não é um Quixote, mas um fantoche que a indústria cultural criou para engabelar as pobres crianças, não as crianças pobres, pois estas não têm vez com o velho pançudo na noite do Natal, que, para elas, é motivo de tristeza. Claro, a filosofia do consumismo, do eu posso comprar e do eu posso presentear propicia essa atmosfera sombria em que o sentimento mais abominável do homem vem à tona: a inveja “que baba...” e tudo do que dela advém.
Enquanto o bom burguês se banqueteia, troca sorrisos, dá presentes, recebe presentes, belisca quitutes e bebe bom vinho, os pequenos ódios silenciosos carcomem almas desencantadas pela mentira convencional do Natal. Quando o burguês infeliz dá presentes, de regra vem o comentário: “foi caríssimo!” Aqueles que recebem presentes não caríssimos olham desolados para a coisa e dizem, descaradamente: “lindo”, “amei” e cuidam de desenhar no semblante aquele sorriso ensaiado para as ocasiões próprias das festas natalinas e outras que tais. Em qualquer contexto, essa história de trocar presentes nas noites natalinas é baixar o cachaço aos comandos publicitários, alimentados pela sede de lucro de comerciantes acostumados à postura bovina de consumidores ingênuos... e lisos.
Não se vá aqui tecer considerações sobre os significados que se escondem por trás do signo tenebroso do Natal. Há deles provindos de cabeças persuadidas pelos instrumentos da indústria cultural, que redundam, de regra, em lugares-comuns, chavões batidos e, quase sempre, traduzidos no palavreado oco e insípido, próprio de quem faz leitura caolha do mundo. Outros há que enveredam no discurso aparentemente teológico, pois suas falas, tal como no discurso político, encerram a mesma mensagem da paz universal, da festa da fraternidade, do amor que deve unir os homens e outras baboseiras afins, embora o noticiário veicule, todos os dias, as maldades, o egoísmo, a perversidade, o pouco caso com a vida do outro, a desumanidade atroz e sanguinolenta dessa triste humanidade, refestelada na e acostumada com a sempre presente cruel hipocrisia.
Os demais discursos filistinos provirão, na certa, dos centros oficiais largamente aceitos pela grande massa. Algum padre de fala melíflua, discurso gosmento, cabeleira bem assentada, vestido de acordo com os últimos figurinos da moda européia, construirá mensagens de paz para todos os boquiabertos fieis, que dali saem com a certeza de que sua alma estará salva nessa “noite feliz do Senhor Deus do amor”! Algum pastor risonho e algum rabino sisudo também ensaiarão discurso sábio, tão sensaborão quanto o daquele sacerdote jeitoso com as palavras. Todas as falas serão tão pontuais quanto à missa do galo, o “chantclair” que, por três vezes, anunciou a falta de fidelidade de Pedro com seu mestre. Haverá algo do inconsciente nisso? Assunto para psicanalistas estudiosos e expertos e espertos...
Discurso cínico? Descaramento com as coisas divinas? Temor de ser espontâneo e encarar, cristãmente essa festa tão bonita em que se homenageia um homem de coração manso e transbordante de amor?
Nada disso. Se a postura fosse cínica, na linha dos pensadores gregos Antístenes e Diógenes, talvez o teatro do Natal não merecesse mais que um sorriso de desprezo; o Natal não tangencia o divino em nada, não passa de um jogo cretinoide entre alguém que vende e alguém que é persuadido a comprar, ainda que não tenha condições para isso (que o digam o SPC e o CERASA); por fim, se o Cristo, o cordeiro da paz, o anjo maior do amor voltasse a Terra e testemunhasse a pantomima do Natal, com certeza empunharia o látego com que chicoteou os vendilhões do templo e, sem dó nem piedade, lanharia costas e almas dessa casta de novos fariseus e bradaria “afastai-vos de mim, vós que obrais a iniqüidade”.
Ho, ho, ho, ho, ho...



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