sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

NA CASA DO SENHOR NÃO EXISTE SATANÁS. XÔ, SATANÁS!
                                                                                           Hugo Martins

Quem primeiro fez uma leitura diferente da figura do Cristo, apreendendo-o na sua dimensão humana, foi o grego Nikos Kazantzakis, também autor do romance Zorba, o Grego, levado ao cinema, e estrelado pelo ator mexicano Anthony Quinn.
A leitura aqui referida se encontra no romance A Última Tentação, que o cineasta Martin Scorsese acrescentou, por sua conta, o complemento nominal “de Cristo”. Embora tenha causado algum “frisson” na mentalidade burguesa e farisaica dos tempos modernos, a obra está aí, livre, soberana, atestando a coragem de seu autor em expor convicções desafiadoras e temerárias...
Outro escritor, que também procede a uma leitura diferente do ser do Nazareno e do próprio Deus, é o português José de Sousa Saramago, ganhador do Prêmio Nobel em literatura em 1998. O autor não levanta bandeiras, tampouco toma partido por esta ou aquela forma de pensar o fenômeno religioso. Demonstra não ter se rendido, passivamente, a opiniões de quem quer que seja. Saramago se revela livre para depreender o que se esconde por trás dos signos culturais e linguísticos de toda sorte e das intenções, quase sempre direcionadas, de pregadores e intérpretes donos de uma verdade questionável. O português tem a sua própria verdade, construída na base de reflexões e intuída de leituras variadas, que lhe servem de grande lupa para enxergar, “sob o manto diáfano da fantasia”, o que se esconde nos imperativos categóricos, provindos de falas levianas a que se não deve dar importância. Isso fica para os ingênuos, para os descerebrados, para os medrosos e pusilânimes.
Furto-me à tentação de fazer qualquer comentário sobre as obras, sobretudo porque elas poderão chocar, escandalizar e provocar faniquitos nos senhores e senhoras tão dados à salvação das almas e tão empenhados na luta contra o “inimigo”, que eles tanto abominam, mas como falam daquele, deixando de lado o “amigo”... É ler e chegar a conclusões...
Trata-se de duas obras fundamentais: a primeira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo; a segunda, Caim. Vale a pena ler. Não trazem doutrinas, não fazem apologias, não trazem verdades absolutas, não encerram discurso persuasivo de conversões e outros fenômenos. Não. Bastam-se a si mesmas, pois veiculam “uma leitura possível” de um texto pouco visitado, raramente revisitado e, por via de conseqüência, quase não pensado.   
Depois da leitura daquelas obras, não é suficiente abrir o arsenal de insultos estereotipados contra o autor. Trata-se de obra literária e não manual de conversão... Dizem que “literatura é ficção, criação de uma supra-realidade, com os dados profundos e singulares da intuição do artista.” Por isso, não é bom confundir Saramago com padres e pastores modernosos, de discurso melífluo e donos de falas prêt-à-porter.
O criador de Ensaio sobre a Cegueira é romancista dos melhores, repita-se, cujo discurso faz pensar e dissipar as nuvens negras do obscurantismo...
Apenas.




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