NA
CASA DO SENHOR NÃO EXISTE SATANÁS. XÔ, SATANÁS!
Hugo
Martins
Quem primeiro fez uma
leitura diferente da figura do Cristo, apreendendo-o na sua dimensão humana, foi
o grego Nikos Kazantzakis, também autor do romance Zorba, o Grego, levado ao
cinema, e estrelado pelo ator mexicano Anthony Quinn.
A leitura aqui referida
se encontra no romance A Última Tentação, que o cineasta Martin Scorsese
acrescentou, por sua conta, o complemento nominal “de Cristo”. Embora tenha
causado algum “frisson” na mentalidade burguesa e farisaica dos tempos
modernos, a obra está aí, livre, soberana, atestando a coragem de seu autor em
expor convicções desafiadoras e temerárias...
Outro escritor, que
também procede a uma leitura diferente do ser do Nazareno e do próprio Deus, é
o português José de Sousa Saramago, ganhador do Prêmio Nobel em literatura em
1998. O autor não levanta bandeiras, tampouco toma partido por esta ou aquela
forma de pensar o fenômeno religioso. Demonstra não ter se rendido,
passivamente, a opiniões de quem quer que seja. Saramago se revela livre para
depreender o que se esconde por trás dos signos culturais e linguísticos de
toda sorte e das intenções, quase sempre direcionadas, de pregadores e
intérpretes donos de uma verdade questionável. O português tem a sua própria
verdade, construída na base de reflexões e intuída de leituras variadas, que
lhe servem de grande lupa para enxergar, “sob o manto diáfano da fantasia”, o
que se esconde nos imperativos categóricos, provindos de falas levianas a que
se não deve dar importância. Isso fica para os ingênuos, para os descerebrados,
para os medrosos e pusilânimes.
Furto-me à tentação de
fazer qualquer comentário sobre as obras, sobretudo porque elas poderão chocar,
escandalizar e provocar faniquitos nos senhores e senhoras tão dados à salvação
das almas e tão empenhados na luta contra o “inimigo”, que eles tanto abominam,
mas como falam daquele, deixando de lado o “amigo”... É ler e chegar a
conclusões...
Trata-se de duas obras
fundamentais: a primeira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo; a segunda, Caim.
Vale a pena ler. Não trazem doutrinas, não fazem apologias, não trazem verdades
absolutas, não encerram discurso persuasivo de conversões e outros fenômenos.
Não. Bastam-se a si mesmas, pois veiculam “uma leitura possível” de um texto
pouco visitado, raramente revisitado e, por via de conseqüência, quase não
pensado.
Depois da leitura
daquelas obras, não é suficiente abrir o arsenal de insultos estereotipados
contra o autor. Trata-se de obra literária e não manual de conversão... Dizem
que “literatura é ficção, criação de uma supra-realidade, com os dados
profundos e singulares da intuição do artista.” Por isso, não é bom confundir
Saramago com padres e pastores modernosos, de discurso melífluo e donos de falas
prêt-à-porter.
O criador de Ensaio
sobre a Cegueira é romancista dos melhores, repita-se, cujo discurso faz pensar
e dissipar as nuvens negras do obscurantismo...
Apenas.
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