DECLARAÇÕES
DE UM AMANTE RIDICULAMENTE APAIXONADO.
Hugo
Martins
Dormi bem, mas passei a
noite sonhando com ela. Sábado, manhã ensolarada, muito calor. Aula de língua
italiana: condizionale, imperfetto, passato prossimo, i pronomi diretti, i
pronomi relativi, via della grammatica, ma non mi dire, buon viaggio... Final
de aula. Ligação telefônica. Pedir táxi. Percorro o corredor sujo e encardido
do pátio da faculdade, sinto a náusea sartriana, e eu pensando nela. É amor que
vale a pena Está à minha espera com toda a fidelidade, sem rebuços, paciente,
sem contradições, sem me falar em promessas e planos. Gosto de seu jeito. Se
escorrega em mentiras, pois costuma dizê-las com freqüência, embora, nesses
momentos, esconda-se no jogo de palavras e ensaie peripécias retóricas para me
nocautear com seus argumentos quase que irrefutáveis, meus olhos não impõem a
ela outra roupagem diversa daquela da condição humana. Aceito-a com suas
contradições e respeito sua condição de ser livre. Ninguém tem o direito nem o
condão de impor mudanças a ninguém. Ela já tentou fazer isso inumeráveis vezes,
mas encontra minha renitência na minha condição de também ser livre. Por isso,
embora pareça que não pretenda me impor mudanças, com seus caprichos e seus
arroubos mandões, sempre de mim se aproxima, sorrateiramente, e vai soltando a
linha de seu novelo de argumentos e acaba por se impor à minha vontade. Não com
mentiras lesivas às minhas expectativas, mas com a mentira carinhosa, benéfica,
que torna o mundo mais lírico, mais suportável. Rendo-me a ela e deixo-me levar
pelo acalanto do vaivém de seus buliçosos braços e pelos sussurros amorosos que
não cansa de me cochichar, travessamente, nos ouvidos. Nesses ensaios, de tênue
e delicada sensualidade, mergulho sem medo, sei haver ali verdades
imorredouras, cujas muralhas servem de anteparo ao indevido ingresso das
mentiras convencionais do dia a dia. Saio desse estonteante devaneio. O táxi estacionara
em frente ao prédio do apartamento em que moro.
Subo as escadas. O
coração bate regularmente. Na expectativa de reencontrá-la, enfio a chave na
fechadura da porta da frente e empurro levemente a porta. Não vejo ninguém.
Leve decepção se estampa na minha alma. Começo a entretecer projeções (pasto
para psicólogos direcionarem a vida de sicranos e beltranos). Faço silêncio,
baixo a cabeça e desconfio de que minha autoconfiança está a querer me
abandonar. Sorvo fundamente uma golfada de ar, empurro a folha da porta e giro
a chave. Viro-me. Ela está a poucos passos de mim, fitando-me com olhos serenos
e sinceros com a me dizer que ela nunca mudou, que não pretende me mudar, pois
somos o que somos. Pego de suas mãos. Abraço-a e levo-a para uma rede de corda,
que fica na área e me serve de aconchego para jogos amorosos, coisa que, com
ela, pratico todo dia. Antes, olho-a longamente. Está vestindo roupa colorida,
salpicada, aqui e ali, por discretas estampas. Enquanto caminhamos sem pressa
para a rede, apalpo seu corpo rígido. Sem despi-la, abro todos os seus membros
(são vários) e nela me introduzo num mergulho gozoso e interminável. Saio da
rede. Ela nos meus braços. Aperto-a de encontro ao peito. Estendo-a sobre a
superfície plana do birô. É minha fêmea, meu tudo, minha amiga sincera,
independente e desnuda da carapaça dos ouriços. Entrega-se gratuitamente e
cobra de mim a mesma doação incondicional. Abandonado nos seus braços, viajo, choro,
dou boas risadas, conheço lugares e pessoas interessantes, sobretudo as avessas
a gratuitas futilidades. Aprendo com ela, amo-a sem medo, e, sem ela, para mim,
é quase impossível viver. É discreta, não leva ao conhecimento de terceiros
nossa vida pessoal, tampouco joga aos apetites de aves daninhas nossas
intimidades. Não. É uma dama, é discrição, é pura classe, é refinamento. Por
isso, grito aos quatro ventos, sem titubear e sem medo de ser ridículo como
costuma ocorrer com os amantes eternamente apaixonados: EU TE AMO, LITERATURA!
Simplesmente.
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