CRONIQUETA
ARRANCADA A FÓRCEPS.
Hugo Martins
Os dedos querem correr
na superfície dura do teclado. Nada. Pego de uma caneta e refugio-me num canto
de mesa. Garatujo o papel. Nada. Vem o desânimo. O silêncio propicia a busca do
assunto. Embora grávido de mundo, o
parto não acontece. Penso no orador romano Marcus Tulius Cicero, que dizia que
não devemos passar um só dia sem escrever uma linha, sob pena de o dia ser
considerado inútil. Em seguida, lembro-me dos conselhos de Drummond à filha
Julieta, tecendo-lhe exortações a escrever todo dia, qualquer coisa, escrever
por escrever, sem pensar em publicação. Para o poeta itabirano, escrever seria
a forma mais legítima de se dialogar com o mundo, embora essa interação se dê
entre aquele que pensa o mundo e o escreve. O mundo está aí, inerte,
indiferente aos homens e às suas dores. O homem que trate de dispersar estas ou
não procurá-las. Aliás, pensar o mundo é trazê-lo nos ombros e criar para si
mesmo situações de angústia. Por isso, bem andam os que sofrem de miopia real
ou intelectual. Ainda assim este escriba prefere conviver com o sofrimento
nosso de cada dia, que nos impõe, em nosso mortal silêncio, o ato de pensar.
De nada adianta esticar o olhar e querer
enxergar significações no mundo se o intérprete render-se às imposições dos
aparelhos ideológicos do Estado. Em isso ocorrendo, falseia-se o real. Já
pensou o Natal? Abstraiam-se as árvores de inverno europeu; elimine-se a figura
balofa do velhote de brancas barbaças, pança abaulada e risada copiada do
cinema hollywoodiano; não se dê a mínima importância a crianças encarapitadas
no alto dos prédios a entoar batidos Jingles Bell... Suprimido esse texto da
indústria cultural, não se trocam presentes; dispersem-se as reuniões de
estudados “amigos secretos” com gosto de cultura norte-america. Feito isso,
todos se apresentam na condição de pessoas não manipuladas, dispostas a, numa
atmosfera de franca simplicidade, verdadeiramente cotizar ternura, amor, gratidão
e outras manifestação de carinho de quem deixou em casa, ou no raio que o
parta, a mesquinhez dos pequenos ódios cotidianos.
As renas, o Papai Noel
de largos borzeguins, a neve que cai, a aldeia banhada de lua e neve constituem
a mis em scène do que há de mais
ridículo para personificar o Natal.
Alguém dirá: esse
sujeito que costurou este texto é um revoltado, um recalcado, um traumatizado
por algum episódio ruim que experimentou na infância... Da minha parte, dos
altiplanos de minha aparente insensatez, dispenso a opinião provinda de
qualquer casta de psicólogos, tantos os de academia quanto os que garimpam em
obras esparsas, ofertadas a conta-gotas, fórmulas de “como bem viver.”
Aprendi a ler nos
livros e na escola da vida. Tanto é que ainda me pergunto se a festa
comemorativa dos natais não é um jogo ilusório. O calendário romano só tinha
dez meses. Depois acrescentaram mais dois: julho e agosto. O primeiro, em
homenagem a Júlio César; o segundo, em homenagem a Otávio Augusto. Diante
desses fatos, quem garante, com segurança e certeza, o ano e o
dia do nascimento do Cristo? Estamos
vivendo o século XIX, o século XX ou o século XXI.
Sei não... Ho, ho, ho,
ho...
Alguém dirá: não
importa. Interessa comemorar. Fazer empréstimos. Gastar. Endividar-se, Vestir
roupa domingueira. Esbaldar-se com bebidas e comidas. E se guardar “pra quando
o Carnaval passar.”
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