sábado, 20 de dezembro de 2014

CRONIQUETA ARRANCADA A FÓRCEPS.
                                                     Hugo Martins

Os dedos querem correr na superfície dura do teclado. Nada. Pego de uma caneta e refugio-me num canto de mesa. Garatujo o papel. Nada. Vem o desânimo. O silêncio propicia a busca do assunto.  Embora grávido de mundo, o parto não acontece. Penso no orador romano Marcus Tulius Cicero, que dizia que não devemos passar um só dia sem escrever uma linha, sob pena de o dia ser considerado inútil. Em seguida, lembro-me dos conselhos de Drummond à filha Julieta, tecendo-lhe exortações a escrever todo dia, qualquer coisa, escrever por escrever, sem pensar em publicação. Para o poeta itabirano, escrever seria a forma mais legítima de se dialogar com o mundo, embora essa interação se dê entre aquele que pensa o mundo e o escreve. O mundo está aí, inerte, indiferente aos homens e às suas dores. O homem que trate de dispersar estas ou não procurá-las. Aliás, pensar o mundo é trazê-lo nos ombros e criar para si mesmo situações de angústia. Por isso, bem andam os que sofrem de miopia real ou intelectual. Ainda assim este escriba prefere conviver com o sofrimento nosso de cada dia, que nos impõe, em nosso mortal silêncio, o ato de pensar.
 De nada adianta esticar o olhar e querer enxergar significações no mundo se o intérprete render-se às imposições dos aparelhos ideológicos do Estado. Em isso ocorrendo, falseia-se o real. Já pensou o Natal? Abstraiam-se as árvores de inverno europeu; elimine-se a figura balofa do velhote de brancas barbaças, pança abaulada e risada copiada do cinema hollywoodiano; não se dê a mínima importância a crianças encarapitadas no alto dos prédios a entoar batidos Jingles Bell... Suprimido esse texto da indústria cultural, não se trocam presentes; dispersem-se as reuniões de estudados “amigos secretos” com gosto de cultura norte-america. Feito isso, todos se apresentam na condição de pessoas não manipuladas, dispostas a, numa atmosfera de franca simplicidade, verdadeiramente cotizar ternura, amor, gratidão e outras manifestação de carinho de quem deixou em casa, ou no raio que o parta, a mesquinhez dos pequenos ódios cotidianos.
As renas, o Papai Noel de largos borzeguins, a neve que cai, a aldeia banhada de lua e neve constituem a mis em scène do que há de mais ridículo para personificar o Natal.
Alguém dirá: esse sujeito que costurou este texto é um revoltado, um recalcado, um traumatizado por algum episódio ruim que experimentou na infância... Da minha parte, dos altiplanos de minha aparente insensatez, dispenso a opinião provinda de qualquer casta de psicólogos, tantos os de academia quanto os que garimpam em obras esparsas, ofertadas a conta-gotas, fórmulas de “como bem viver.” 
Aprendi a ler nos livros e na escola da vida. Tanto é que ainda me pergunto se a festa comemorativa dos natais não é um jogo ilusório. O calendário romano só tinha dez meses. Depois acrescentaram mais dois: julho e agosto. O primeiro, em homenagem a Júlio César; o segundo, em homenagem a Otávio Augusto. Diante desses fatos,  quem   garante, com segurança e certeza, o ano e o dia do nascimento do Cristo?  Estamos vivendo o século XIX, o século XX ou o século XXI.
Sei não... Ho, ho, ho, ho...
Alguém dirá: não importa. Interessa comemorar. Fazer empréstimos. Gastar. Endividar-se, Vestir roupa domingueira. Esbaldar-se com bebidas e comidas. E se guardar “pra quando o Carnaval passar.”



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