sábado, 18 de junho de 2016

INDICAÇÃO
                                                                           Hugo Martins
“Sou um contador de histórias”. Assim sempre se definiu o escritor gaúcho de Cruz Alta, Érico Veríssimo. A opinião da crítica em pouco ou quase nada o interessava. Importava-lhe escrever, narrar as acontecências do mundo e tocar, aliás com máxima ternura, a alma do leitor. O primeiro contato literário que com ele mantive se deu por intermédio da leitura do romance Olhai os Lírios do Campo. Daí por diante, acompanhei o desabrochar da menina Clarissa; a atmosfera sombria e autoritária das ditaduras no Senhor Embaixador e em Incidente em Antares; mergulhei na aura misteriosa de O Resto é Silêncio e, nesse banquete literário, sôfrego e contínuo, conheci o porquê da infinita e entranhada tristeza do povo mexicano no livro de viagem México, além de saborear o modo de ser do povo estadudinense em Gato Preto em Campo de Neve e A Volta do Gato Preto... Muito me enterneci e muito me alegrei com o romance-rio O Tempo e o Vento, saga do povo gaúcho, que se inicia à época dos Sete Povos das Missões, na Banda Oriental (atual Uruguai) e se estende até o governo do homem de São Borja... Trata-se de obra com sabor épico, cuja trama e análise centra-se nas figuras de Ana Terra e o Capitão Rodrigo Cambará e se espraia por milhares de páginas, verdadeiro gozo estético e encantamento intelectual. A obra ultimamente referida divide-se em três partes: O Continente (dois tomos), o Arquipélago (dois tomos) e o Retrato (três tomos). Nesta obra gigantesca, desfilam personagens de todo jaez. Só o leitor experimentando. Basta convencer-se de que além de novelas globais, “fortais” e outras imbecilidadades do mesmo naipe, existem as maravilhas da literatura, esta que preenche a alma, debela o tédio, encanta, inebria e dá sentido mais profundo à existência. E Érico Veríssimo se inscreve no rol de encantadores. Aconselha-se, porém, que, antes de dar início à leitura da obra, leia-se, em primeiro lugar, a obra memorialística Solo de Clarineta. Aqui, além de vivenciar o tempo histórico do autor, bem como seu autorretrato literário, testemunha-se como se revela uma vocação para as Belas-Letras. Aduza-se que, nesse passo, Érico mal concluiu o antigo Curso Ginasial, que equivale ao tristíssimo Ensino Fundamental de hoje... Ali, também, o autor expõe a gênesis de sua criação. Se o leitor aprecia experimentar emoções diferentes, sem dúvidas, a obra do escritor gaúcho oferecerá isto em doses cavalares. Encontrará histórias alegres, trágicas e demasiadamente humanas. Experimentará a dor do absurdo, a tragicomicidade da existência e a alegria do viver. Reflexões não faltam...
 Você, leitor, que anda à cata de frases de efeito no facebook, tentando impingir aos outros visões de mundo expressas naquelas, leia Érico e experimente grandes e sinceras alegrias, afinal ele veicula em suas obras o teatro da existência em todas suas nuanças. Por fim, o vocabulário é rico e as metáforas se apresentam em cachoeiras de torneios verbais...
Fica aí a sugestão... Acrescento: a primeira obra aqui referida, que traz como título uma frase do Cristo, em São Mateus (O Sermão do Monte ou das bem-aventuranças), constitui-se numa rica alegoria acerca do tema da ressurreição... Nada de proselitismo, nada de discurso teológico. Apenas a compreensão profunda da vida e da morte em sua mais larga profundidade. Esse gosto de vida, insistentemente presente na obra de Érico, é marca e sinete de sua intuição de homem sensível e integrado no devir histórico e dramático do homem no mundo.  



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