INDICAÇÃO
Hugo Martins
“Sou um
contador de histórias”. Assim sempre se definiu o escritor gaúcho de Cruz Alta,
Érico Veríssimo. A opinião da crítica em pouco ou quase nada o interessava.
Importava-lhe escrever, narrar as acontecências do mundo e tocar, aliás com
máxima ternura, a alma do leitor. O primeiro contato literário que com ele
mantive se deu por intermédio da leitura do romance Olhai os Lírios do Campo.
Daí por diante, acompanhei o desabrochar da menina Clarissa; a atmosfera
sombria e autoritária das ditaduras no Senhor Embaixador e em Incidente em
Antares; mergulhei na aura misteriosa de O Resto é Silêncio e, nesse banquete
literário, sôfrego e contínuo, conheci o porquê da infinita e entranhada
tristeza do povo mexicano no livro de viagem México, além de saborear o modo de
ser do povo estadudinense em Gato Preto em Campo de Neve e A Volta do Gato
Preto... Muito me enterneci e muito me alegrei com o romance-rio O Tempo e o
Vento, saga do povo gaúcho, que se inicia à época dos Sete Povos das Missões,
na Banda Oriental (atual Uruguai) e se estende até o governo do homem de São
Borja... Trata-se de obra com sabor épico, cuja trama e análise centra-se nas
figuras de Ana Terra e o Capitão Rodrigo Cambará e se espraia por milhares de
páginas, verdadeiro gozo estético e encantamento intelectual. A obra
ultimamente referida divide-se em três partes: O Continente (dois tomos), o
Arquipélago (dois tomos) e o Retrato (três tomos). Nesta obra gigantesca,
desfilam personagens de todo jaez. Só o leitor experimentando. Basta
convencer-se de que além de novelas globais, “fortais” e outras imbecilidadades
do mesmo naipe, existem as maravilhas da literatura, esta que preenche a alma,
debela o tédio, encanta, inebria e dá sentido mais profundo à existência. E
Érico Veríssimo se inscreve no rol de encantadores. Aconselha-se, porém, que,
antes de dar início à leitura da obra, leia-se, em primeiro lugar, a obra
memorialística Solo de Clarineta. Aqui, além de vivenciar o tempo histórico do
autor, bem como seu autorretrato literário, testemunha-se como se revela uma
vocação para as Belas-Letras. Aduza-se que, nesse passo, Érico mal concluiu o
antigo Curso Ginasial, que equivale ao tristíssimo Ensino Fundamental de
hoje... Ali, também, o autor expõe a gênesis de sua criação. Se o leitor
aprecia experimentar emoções diferentes, sem dúvidas, a obra do escritor gaúcho
oferecerá isto em doses cavalares. Encontrará histórias alegres, trágicas e
demasiadamente humanas. Experimentará a dor do absurdo, a tragicomicidade da
existência e a alegria do viver. Reflexões não faltam...
Você, leitor, que anda à cata de frases de
efeito no facebook, tentando impingir
aos outros visões de mundo expressas naquelas, leia Érico e experimente grandes
e sinceras alegrias, afinal ele veicula em suas obras o teatro da existência em
todas suas nuanças. Por fim, o vocabulário é rico e as metáforas se apresentam
em cachoeiras de torneios verbais...
Fica aí a
sugestão... Acrescento: a primeira obra aqui referida, que traz como título uma
frase do Cristo, em São Mateus (O Sermão do Monte ou das bem-aventuranças),
constitui-se numa rica alegoria acerca do tema da ressurreição... Nada de
proselitismo, nada de discurso teológico. Apenas a compreensão profunda da vida
e da morte em sua mais larga profundidade. Esse gosto de vida, insistentemente
presente na obra de Érico, é marca e sinete de sua intuição de homem sensível e
integrado no devir histórico e dramático do homem no mundo.
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