segunda-feira, 20 de junho de 2016

ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA (uma concepção).
Hugo Martins
Não se deve conceber o ensino do idioma pátrio senão tendo por suporte o texto. Qualquer que seja ele. Escolas há que se expõem ao ridículo de possuir em seu quadro um professor de redação, um professor de gramática, um professor de literatura e outros bichos, como se a língua fosse uma colcha de retalhos, com um especialista para cada retalho. O mais trágico é que muitos dos especialistas nisso ou naquilo, muitas vezes não ostentam competência profissional nem mesmo para alinhavar um punhado de frases, a elas emprestando aparência de texto. Outros ensinam literatura, mas não lêem os livros a que se referem em sala de aula, pois, se a eles fazem alusão, as mais das vezes conhecem-nos de outiva ou en passant, pescando, aqui e ali, alguma informação falseada de livros didáticos elaborados apressadamente por editoras que só raciocinam por cifrões. Quando não, quedam-se na pura historiografia, por si mesma estéril, pois desvinculada dos textos representativos de cada estilo de época em literatura.
O ensino da gramática é feito de forma descontextualizada. É oferecida por meio de um menu em que o aluno é obrigado a decorar regras, exceções e coisas que tais. Absurdo dos absurdos, a sintaxe parece não servir para coisa nenhuma, pois não é vista como instrumento de o aluno tornar-se leitor mais percuciente e mais crítico. Antes, revela-se instrumento de tortura intelectual e veicula uma verdade nada verdadeira: a língua portuguesa é complicada. Parece-nos que complicado é o professor de língua portuguesa levar à sala de aula a gramática pela gramática, a gramática como um fim em si mesma. Negligenciar a leitura do texto, sua escritura, a consulta ao dicionário, a observação do estético no texto literário significa, como diz o vulgo, o mesmo que “chover no molhado”, o mesmo que vender geladeira na Antártida... Ao aluno não interessa aprender uma língua que ele já conhece.
Érico Veríssimo mal concluiu o curso ginasial (hoje curso fundamental); Machado de Assis não freqüentou academias escolares, aprendeu com um padre, quando menino, alguns rudimentos de latim e de francês; Monteiro Lobato tinha verdadeira ojeriza à gramatiquice pretensiosa. Uma coisa é certa: estes e muitos escritores consagrados tornaram-se o que são porque, sobretudo liam, liam e liam. Eram ratos de biblioteca, metáfora feliz com que alguém rotulou Clóvis Beviláqua e Capistrano de Abreu. Em outras palavras: a aprendizagem da língua, em não importa que nível (culto, familiar tenso ou familiar distenso) dá-se pela leitura. Simplesmente.
Deixe-se, pois de lado, o autoritarismo do discurso gramatiqueiro, as poses doutorais e bacharelescas. Recorra-se ao sadio autodidatismo, ao amor gratuito pelos livros e leve-se à sala de aula o entusiasmo pelas possibilidades múltiplas que a língua portuguesa esconde em seu bojo. Basta que se descubram. Assim, a língua se “descomplica”, e o mundo será mais belo... Sem gramática ou apesar dela.

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