sábado, 18 de junho de 2016

                                       TÍTULOS E SIGNIFICAÇÕES
                                                    Hugo Martins
Insisto em lembrar que o título de muitas obras literárias abre pistas seguras para múltiplas interpretações e a descoberta de significados esconsos, intrínsecos e extrínsecos, na obra cuja leitura se faz. Vamos aqui nos referir a duas obras literárias conhecidas do público brasileiro: Lucíola e Vidas Secas. A primeira, de Alencar; a outra, de Graciliano Ramos.
O prenome Lucíola já vem explicado pelo próprio escritor cearense, antes do início da narração.  Diz tratar-se de um lampiro, nada mais que o nosso pirilampo ou vaga-lume. Suprimindo de Lucíola o sufixo OLA, formador de diminutivos, resta-nos Lúcia, prenome formado do substantivo latino LUX, LUCIS, que significa LUZ. Daí lucilar lucilante, alucinar, Lúcifer... Ora, a personagem era uma prostituta, portanto, mulher que, à época, exercia seu ofício à noite. Aliás, a palavra mariposa designa também, metaforicamente, a prostituta. Nos anos sessenta, Nelson Gonçalves gravou uma letra de Adelino Moreira, se não me engano, com esse título. Um pedaço da letra: “... até que um dia trocaste meu samba e a lua do morro pela luza da cidade/Segue o teu caminho, mariposa, já que essa luz te embriaga/ Mas nunca te esqueças, mariposa que toda luz se apaga/ Presta bem atenção, mariposa, neste aviso derradeiro: antes que a luz da cidade se apague, pode cegar-te primeiro.” Lucíola era uma mariposa, depois remida pelo amor. Era um demônio (ver: lux, lucis), era uma madalena decaída, recuperada pelo amor sincero. Coisas da escola romântica. Bom ler a obra. Eis a explicação do título.
Vidas Secas é título, cujo significado mais profundo se espraia pela paisagem, pela vida que levavam os quatro retirantes, pela fala de cada um daqueles miseráveis sem pouso certo, bem como pela linguagem. Nesta, não há concessões ao lirismo desmedido, as palavras são escolhidas como o minerador, que, à procura da pedra preciosa, faz dançar a bateia para a eliminação, na areia aurífera, de tudo que for entulho, de tudo que for impureza. Adjetivos se casam com o substantivo sem possibilidade do divórcio. Não se repelem, um é parte necessária do outro. Eis a secura lingüística que põe em fuga o leitor ingênuo.
A paisagem está inçada de vegetação áspera e seca como a lembrar esqueletos fantasmagóricos, comburidos pela inclemência do Sol. Ausência absoluta de água. Tudo favorece a sensação de pleno abandono. A planície é avermelhada e nela só se distinguem as manchas verdes de dois juazeiros.
Os personagens quase não falam. Quando o fazem, é por meio de grunhidos ou monossílabos incompreensíveis. Os meninos não têm nome. São designados pelos sintagmas nominais com sabor de adjetivo pejorativo: “o menino mais velho” e “o menino mais novo”. Existe secura maior não possuir um nome?  Em contraposição, tem-se a cachorra Baleia (devidamente nominada), a quem o romancista concede a faculdade de raciocinar e fazer ilações. Fabiano, marido de Sinhá Vitória, alimenta a dúvida cartesiana: “sou homem ou sou animal?”. De Sinhá Vitória colhe-se uma virtude: na opinião de Fabiano, a mulher é dona de inteligência admirável. Só vai lendo a obra. Sinhá Vitória nada tem de vitoriosa. Também é espectadora inerte dum sertão sem fronteiras e sem saídas...
Pois bem Vidas Secas é livro seco, concebido em plena era Vargas.  E o tal Vidas Secas coloca em gigantesca metáfora o que significam as ditaduras, o descaso político com as populações, geográfica e culturalmente ilhadas, as quais se animalizam ou são jogadas no ralo em que o homem é colocado numa categoria abaixo do animal. Não é à toa que o escritor alagoano foi preso porque escrevia livros. Foi preso, sim, e posto em liberdade sem um processo judicial regular. Apenas pela determinação do ditador, que, tal como outros ditadores, não apreciava ser colocado em frente à verdade. Esta é seca, não faz concessões... As ditaduras também são secas; caçam e cassam o direito de pensar, mas não têm o poder de impedir esse direito tão livre quanto humano.
Simples, não?




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