TÍTULOS
E SIGNIFICAÇÕES
Hugo Martins
Insisto em lembrar que o
título de muitas obras literárias abre pistas seguras para múltiplas interpretações
e a descoberta de significados esconsos, intrínsecos e extrínsecos, na obra
cuja leitura se faz. Vamos aqui nos referir a duas obras literárias conhecidas
do público brasileiro: Lucíola e Vidas Secas. A primeira, de Alencar; a outra,
de Graciliano Ramos.
O prenome Lucíola já vem
explicado pelo próprio escritor cearense, antes do início da narração. Diz tratar-se de um lampiro, nada mais que o
nosso pirilampo ou vaga-lume. Suprimindo de Lucíola o sufixo OLA, formador de
diminutivos, resta-nos Lúcia, prenome formado do substantivo latino LUX, LUCIS,
que significa LUZ. Daí lucilar lucilante, alucinar, Lúcifer... Ora, a
personagem era uma prostituta, portanto, mulher que, à época, exercia seu
ofício à noite. Aliás, a palavra mariposa designa também, metaforicamente, a
prostituta. Nos anos sessenta, Nelson Gonçalves gravou uma letra de Adelino
Moreira, se não me engano, com esse título. Um pedaço da letra: “... até que um
dia trocaste meu samba e a lua do morro pela luza da cidade/Segue o teu
caminho, mariposa, já que essa luz te embriaga/ Mas nunca te esqueças, mariposa
que toda luz se apaga/ Presta bem atenção, mariposa, neste aviso derradeiro:
antes que a luz da cidade se apague, pode cegar-te primeiro.” Lucíola era uma
mariposa, depois remida pelo amor. Era um demônio (ver: lux, lucis), era uma
madalena decaída, recuperada pelo amor sincero. Coisas da escola romântica. Bom
ler a obra. Eis a explicação do título.
Vidas Secas é título,
cujo significado mais profundo se espraia pela paisagem, pela vida que levavam
os quatro retirantes, pela fala de cada um daqueles miseráveis sem pouso certo,
bem como pela linguagem. Nesta, não há concessões ao lirismo desmedido, as
palavras são escolhidas como o minerador, que, à procura da pedra preciosa, faz
dançar a bateia para a eliminação, na areia aurífera, de tudo que for entulho,
de tudo que for impureza. Adjetivos se casam com o substantivo sem
possibilidade do divórcio. Não se repelem, um é parte necessária do outro. Eis
a secura lingüística que põe em fuga o leitor ingênuo.
A paisagem está inçada de
vegetação áspera e seca como a lembrar esqueletos fantasmagóricos, comburidos
pela inclemência do Sol. Ausência absoluta de água. Tudo favorece a sensação de
pleno abandono. A planície é avermelhada e nela só se distinguem as manchas
verdes de dois juazeiros.
Os personagens quase não
falam. Quando o fazem, é por meio de grunhidos ou monossílabos
incompreensíveis. Os meninos não têm nome. São designados pelos sintagmas nominais
com sabor de adjetivo pejorativo: “o menino mais velho” e “o menino mais novo”.
Existe secura maior não possuir um nome? Em contraposição, tem-se a cachorra Baleia
(devidamente nominada), a quem o romancista concede a faculdade de raciocinar e
fazer ilações. Fabiano, marido de Sinhá Vitória, alimenta a dúvida cartesiana:
“sou homem ou sou animal?”. De Sinhá Vitória colhe-se uma virtude: na opinião
de Fabiano, a mulher é dona de inteligência admirável. Só vai lendo a obra.
Sinhá Vitória nada tem de vitoriosa. Também é espectadora inerte dum sertão sem
fronteiras e sem saídas...
Pois bem Vidas Secas é
livro seco, concebido em plena era Vargas. E o tal Vidas Secas coloca em gigantesca
metáfora o que significam as ditaduras, o descaso político com as populações,
geográfica e culturalmente ilhadas, as quais se animalizam ou são jogadas no
ralo em que o homem é colocado numa categoria abaixo do animal. Não é à toa que
o escritor alagoano foi preso porque escrevia livros. Foi preso, sim, e posto
em liberdade sem um processo judicial regular. Apenas pela determinação do
ditador, que, tal como outros ditadores, não apreciava ser colocado em frente à
verdade. Esta é seca, não faz concessões... As ditaduras também são secas;
caçam e cassam o direito de pensar, mas não têm o poder de impedir esse direito
tão livre quanto humano.
Simples, não?
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