domingo, 19 de junho de 2016

FILOSOFIA DE CEMITÉRIO
Hugo Martins

A paz dos campos santos será quebrada amanhã, 2 de novembro. Em túmulos suntuosos, em covas rasas ou em campos gramados e floridos, os mortos, que já serviram de pasto aos vermes, parecem repousar, indiferentes a tristezas, saudades e flores com que a eles mimoseiam. No ar, boa oportunidade para se praticar a filosofia de cemitérios. Não há um sistema filosófico para isso e, se existe, a todos os mortais ele se revela fácil de compreender, pois não exige refinadas elucubrações, tampouco leitura de livros para apreender sua essência metafísica. A própria existência, com suas sempiternas dores e suas fluidas ilusões, é a matéria-prima da reflexão.
Enquanto ali debaixo da terra-mãe, dormem no sono eterno da indiferença do tempo aqueles que já não são; do lado de cima, desfilam os vivos, que pensam que são, mas estão não-sendo, muito bem vestidos de tristezas esparsas e remorsos vãos. Cada um porta a máscara da ocasião: ar soturno, silêncio inútil, flores de plástico e vela nas mãos, caminhando rumo ao túmulo, nos cemitérios antigos, ou às lápides, em meio a verde grama nos cemitérios modernos. Aliás, estes parecem ter sido criados para amenizar as dores provindas da finitude da condição humana. Ou, talvez, confirmar esta condição.
Há um misto de tristeza e desolação, e um clima de festa. De um lado, os parentes dos mortos; do outro, uma legião de vivos fagueiros, que despertam, também ali, o furor consumista de quem deseja homenagear seus defuntos com flores artificiais, frases feitas e velas ornadas. Paira uma aura meio tragicômica, pois se há vida, que não passa de sucessivos ensaios de vaidade, há a morte, que é o fim de todas as vaidades.
Quanta glória pressentida, quantos sonhos frustrados, quanta riqueza inútil, quanta vaidade vã ali repousa!! Se do lado de baixo tudo isso já se esboroou, do lado de cima, os vivos continuam à procura de algo que lhe escapa à compreensão e lhe serve de leitmotiv, de arqué de tudo, ou coisa que o valha. Onde encontrar explicação? O cemitério, certamente, é o ambiente apropriado. Ali o homem descobre que não passa de um cadáver adiado, de um monte de lama fétida, que também repousará sob a aparência enganosa de sepulcros caiados ou de lápides discretas em que se inscrevem seu nome e período de existência.
A filosofia de cemitérios abre espaço também para que se reflita sobre o medo do homem de ser esquecido. Os cemitérios modernos, que traduzem mais senso comercial, parecem ter acertado na mosca ao retirarem cruzes, estátuas e retratos, pois com a ausência desses signos sepulcrais, a imagem do defunto não se torna tão obsedante no espírito do visitante, e ele é esquecido com maior rapidez. Os cemitérios antigos, além de ostentarem maior soturnidade no ambiente pela presença daqueles signos e ícones, trazem inscritos nas lápides textos em que se ressalta ano de nascimento e falecimento do habitante daquele lugar e, como a querer driblar o esquecimento, relevam as eternas saudades de quem fica...
Um filósofo de cemitérios sempre leva aos vivos a advertência de que não existe motivo de preocupação, pois, ao chegar o momento de suportar com mortal indiferença sete palmos de terra sobre os peitos ou o eterno encarceramento das catacumbas, a cada 2 de novembro, ele pontualmente será lembrado... E La nave vá.

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