terça-feira, 21 de junho de 2016

PEQUENO ENSAIO SOBRE A INUTILIDADE DAS PERMANÊNCIAS
                                                        Hugo Martins

Em conversa informal, um dos presentes pergunta se o verbo” caguetar” está certo ou errado quando o empregamos no sentido de dedurar alguém. Não só é devidamente aceito como também já se encontra dicionarizado. Disse-lhe que, se persistisse a folhear  bons dicionários (Aurélio, Houais...), iria encontrar também a forma “cabuetar” , de largo uso no cotidiano do falante nordestino. Ambos os registros constituem a corruptela do verbo “alcaguetar”. Assim, temos a série do paradigma nominal: “cagueta ou caguete”, “cabueta” e “alcagüete”... São, pois, formas variantes, mais aceitas ou menos aceitas. Nas questões lingüísticas, o certo ou o errado não constituem conceitos   absolutos. Isso é coisa da tradição greco-romana, cujos gramáticos, por razões compreensíveis, só legitimavam as formas e construções advindas dos escritores renomadas. Vezo das gramáticas ocidentais. Tudo muda, tudo passa, tudo se transforma. “Nihil novi sub sole” (nada de novo sob o sol). Por isso, é aconselhável que tenhamos como referencial a norma ou uso a que se referem os lingüistas. Observe-se que o gramático diz que o correto é “assistir AO jogo”. Ora, entre cem brasileiros, no uso espontâneo da expressão, 95 dirão “assistir O jogo”. O sujeito sempre “chega EM casa”, mas o autoritarismo gramatical manda que ele “chegue A casa”... Bárbaro era, para os gregos, aqueles que não falavam grego, portanto, assim se expressavam” bá, bá, bá, bá”. Para os romanos, bárbaro era todo aquele que habitava além das fronteiras do império romano. Aquela turma além-fronteira costumava atacar os romanos e exigir-lhes tributos escorchantes (“ai dos vencidos!”). Para isso, muitas vezes, recorriam à violência atroz e sanguinolenta. Daí, bárbaro passou a significar também alguém impiedoso e sanguinário (hunos, godos, visigodos, ostrogodos, gauleses). Nos anos 60, para a Jovem Guarda, bárbaro denotava tudo aquilo que estivesse consentâneo com a moda, hábitos e gostos da juventude de então...
Por falar em juventude, a hodierna, de linguagem pródiga e rico vocabulário, de algum tempo, vem usando duas locuções para designar algo bom e, em contraposição, algo não bom. Temos: “massa” e “mó paia”. Diante de um belo filme, o sujeito brada: “massa”, brother! Se a película não lhe cai no gosto, diz, decepcionado e irônico: “mó paia”, mermão! Ambos os sintagmas pertencem ao vocabulário de quem vende e faz uso da maconha. Se esta é de má qualidade, é porque está misturada com outras ervas que não o cânhamo puro, a aliamba, a diamba, o haxixe. Se, ao contrário, a substância se assemelhar a cocô seco de cachorro, por não receber qualquer mistura, aí, “cumpade”, a “coisa” é “massa”. Pronto, dentro de algum tempo, estarão tais expressões incorporadas ao vocabulário dicionarizado e na boca do povo “porque ele é que fala gostoso o português do Brasil. Ao passo que nós o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”. O aspeado pertence a Manuel Bandeira no poema Evocação do Recife, poema que faz parte do livro Libertinagem...
Toda palavra, não importa qual, já foi, um dia, um neologismo...


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