SAUDADE
Hugo Martins
Hoje senti falta de alguma
coisa, embora estivesse ocupado a ler Fanáticos e Cangaceiros, do jornalista e
sociólogo Abelardo Montenegro. Deitado em minha rede de corda, armada na
varanda do apartamento, olhei o firmamento. Morcegos ziguezagueavam, e um
pequeno bando de andorinhas fazia revoluteios no ar. Foi então que me apareceu
a coisa que me faltava. Nada de muito especial, só uma leve recordação de
quando eu menino, na minha cidade natal, ouvia tocar o sino da igreja matriz e,
nesse momento, uma nuvem de andorinhas partia do alto da torre em barulhenta
revoada. Não sei por que, mas aquela cena significava para mim poesia. Nem
sonhava eu com o que essa palavra significava. Noel Rosa, na bela letra de Quando o Samba Acabou, descrevendo uma
mulata, dizia que a cabrocha tinha nos olhos “um não sei quê”. Assim, toda vez
que capto um momento lírico instantâneo e não consigo dar a ele uma definição,
parafraseio aquele verso do poeta da Vila.
Hoje
senti falta de uma coisa. Relendo o soneto SAUDADE, do poeta piauiense Da Costa
e Silva, ali vi, na ultima estrofe, o poeta assim querer definir saudade:
Saudade! O Parnaíba – velho monge
As barbas brancas
alongando... E ao longe
O mugido dos bois da
minha terra.
Esse
mugido, não sei por que cargas d´ água me dói lá no fundo da alma. Vejo-me, de
calças curtas de suspensórios, sentado no muro de nossa casa, à hora
crepuscular, ouvindo, ao longe, nas quebradas do sertão, os chocalhos dos bois,
que soltavam mugidos lancinantes naquele fim de tarde, como a compor, com o
aboio dos vaqueiros, melancólica sinfonia pastoral.
Hoje
senti falta de outra coisa. Da pracinha nas cidades do interior, aonde íamos
passar as férias escolares. Depois da
novena, a bandinha de música executava dobrados no patamar da igreja e, na
pracinha em frente, ocorriam leilões e a meninada passeava de bicicleta. Os
mais crescidos e taludos costumavam caminhar em volta da praça em posição
contrária à das meninas. Era uma forma de tornar mais fácil o jogo do
flerte.
A
primeira vez que fui arrebatado pelas coisas do coração ainda está bem
configurada nas minhas lembranças. Não lembro o nome de minha musa; nem sei
mesmo se ainda é viva, com quem vive ou por onde anda. Vi-a passar em uma
bicicleta, em torno da pracinha. Cabelos louros, densos, compridos, arrumados
em forma de trança, em cujas pontas via-se um pequeno e delicado laço. Alva,
lábios finos, olhar intensamente esverdeado, sorriso franco, entregue à
gratuidade do pedalar. Meu coração saltava, minha alma exultava e uma grande
alegria tomava conta de mim toda vez que eu via aquela menina ali na pracinha.
Na minha solidão de menino tímido, não encontrava explicação daquele meu
entusiasmo por aquela lolita, protótipo universalizado da menina-moça em flor...
Coisas
simples, aparentemente fugidias, mas que nos fazem falta, por trazerem de volta
a nós momentos e flagrantes de nossa vida, perdidos na voragem dos tempos...
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