PASSAGEM DE ANO
Hugo Martins
Nada
igual à passagem de ano 2014/15 para mim. Na quarta-feira, já curtindo
homéricas ressacas literárias, resolvi tomar um porre de poesia. Por isso,
deixei de lado Sonhos d´Ouro e desculpei-me com Alencar, afiançando-lhe que,
passado esse dia, voltaria a curtir sua romântica história. O romancista, como
sempre fleumático e tolerante, assentiu filosoficamente, ajuntando que me
esperaria, ciente que está de minha fidelidade alencarina.
Pois
bem. Preparei a mesa, arrumei os livros retirados da estante, e comecei a
sorvê-los como quem degusta um vinho refinado ou um copo da mais gelada das cervejas.
Nenhum comensal. Só eu e meus companheiros. Tomei a primeira dose. De repente,
vi-me no Navio Negreiro, tendo ao lado o baiano Castro Alves, transpirando
indignação a pedir emprestados ao albatroz asas e olhos para melhor enxergar,
no tombadilho, o “sonho dantesco”. Sorvi a segunda dose e ouvi o poeta
apostrofar não só Deus, mas também a natureza como a perguntar-lhes se era
admissível tanto horror perante os céus. O vate estremecia como um insano,
aguilhoado por uma dor insuportável, misto de pavor e impotência. Na terceira
dose, vi-o envergonhado da bandeira que cobria “tanta infâmia e cobardia”, e dirigir-se,
aos gritos, aos heróis do Novo Mundo, pedindo-lhes, ao primeiro, que arrancasse
aquele pendão dos ares; e, ao segundo, que fechasse as portas de seus mares.
Referia-se o poeta adolescente, respectivamente, a José Bonifácio de Andrada e
Silva e ao navegador genovês Cristóvão Colombo. Vi-me tragado, na última dose,
pela atmosfera épica e embriaguei-me com aquele traçado de metáforas e
metonímias, que cheguei ao estertor estético. Disse, de mim para mim, que
aquele porre valera a pena. Afinal, não era pequena a alma do poeta...
Na
quinta-feira, encontrei Machado de Assis num cemitério imaginário... Pouco
importa a elegância do “bruxo”, sua sobrecasaca, os óculos redondos e o chapéu
bem posto, cobrindo-lhe as cãs, acentuando-lhe o bigode a barba grisalha...
Sim, trazia nas mãos um buquê de flores naturais e frescas; no semblante
carregado, uma dor intraduzível; e, na alma curvada, uma solidão sem tamanho...
Vi-o, então, aproximar-se de um túmulo,
em cuja lápide lia-se um nome: Carolina. Depositou as flores na laje fria e
musguenta do sepulcro. Em seguida balbuciou algumas palavras, dizendo:
“querida, ao pé do leito derradeiro, em que descansas dessa longa vida, aqui
venho e virei, pobre querida, trazer-te o coração do companheiro”. Depois
consegui ainda ouvir mais algumas palavras: “Trago-te flores, restos arrancados
da terra, que nos viu passar unidos e, ora mortos, nos deixa e separados.” Ao
fim, como vencido, homenageia sua amada com esse brinde final: “Que eu, se
tenho nos olhos malferidos pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos
e vividos.” Não me contive: entreguei-me
a copioso pranto, enquanto a figura solitária e digna do escritor se embrenhava
por entre as tumbas vetustas naquela manhã fria da cidade que ele tanto amou .
Certamente tomaria um tílburi, que o levaria à casa do Cosme Velho.
Na
sexta-feira, o sol derramava-se pródigo sobre nossa querida Fortaleza. Deitado
na minha redinha de corda, dando continuidade à tarefa de reler toda a obra
romanesca de Alencar, conforme o combinado com ele antes de minha viagem. Já
pela manhã e parte da tarde, findei a leitura de Sonhos d´Ouro. Já engatei Til,
passando os olhos por partes periféricas...
Com o
auxílio do Eclesiastes, não será difícil constatar que o mesmo Sol surgido ontem é o mesmo que surgiu hoje,
igualzinho a que surgirá amanhã.
Se é
tão óbvio assim, não importa. Interessa a LUZ. Para mim, a luz que iluminou meu
dia e minha noite nessa passagem de ano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário