segunda-feira, 20 de junho de 2016

PASSAGEM DE ANO
                                                          Hugo Martins

            Nada igual à passagem de ano 2014/15 para mim. Na quarta-feira, já curtindo homéricas ressacas literárias, resolvi tomar um porre de poesia. Por isso, deixei de lado Sonhos d´Ouro e desculpei-me com Alencar, afiançando-lhe que, passado esse dia, voltaria a curtir sua romântica história. O romancista, como sempre fleumático e tolerante, assentiu filosoficamente, ajuntando que me esperaria, ciente que está de minha fidelidade alencarina.
            Pois bem. Preparei a mesa, arrumei os livros retirados da estante, e comecei a sorvê-los como quem degusta um vinho refinado ou um copo da mais gelada das cervejas. Nenhum comensal. Só eu e meus companheiros. Tomei a primeira dose. De repente, vi-me no Navio Negreiro, tendo ao lado o baiano Castro Alves, transpirando indignação a pedir emprestados ao albatroz asas e olhos para melhor enxergar, no tombadilho, o “sonho dantesco”. Sorvi a segunda dose e ouvi o poeta apostrofar não só Deus, mas também a natureza como a perguntar-lhes se era admissível tanto horror perante os céus. O vate estremecia como um insano, aguilhoado por uma dor insuportável, misto de pavor e impotência. Na terceira dose, vi-o envergonhado da bandeira que cobria “tanta infâmia e cobardia”, e dirigir-se, aos gritos, aos heróis do Novo Mundo, pedindo-lhes, ao primeiro, que arrancasse aquele pendão dos ares; e, ao segundo, que fechasse as portas de seus mares. Referia-se o poeta adolescente, respectivamente, a José Bonifácio de Andrada e Silva e ao navegador genovês Cristóvão Colombo. Vi-me tragado, na última dose, pela atmosfera épica e embriaguei-me com aquele traçado de metáforas e metonímias, que cheguei ao estertor estético. Disse, de mim para mim, que aquele porre valera a pena. Afinal, não era pequena a alma do poeta...
            Na quinta-feira, encontrei Machado de Assis num cemitério imaginário... Pouco importa a elegância do “bruxo”, sua sobrecasaca, os óculos redondos e o chapéu bem posto, cobrindo-lhe as cãs, acentuando-lhe o bigode a barba grisalha... Sim, trazia nas mãos um buquê de flores naturais e frescas; no semblante carregado, uma dor intraduzível; e, na alma curvada, uma solidão sem tamanho...  Vi-o, então, aproximar-se de um túmulo, em cuja lápide lia-se um nome: Carolina. Depositou as flores na laje fria e musguenta do sepulcro. Em seguida balbuciou algumas palavras, dizendo: “querida, ao pé do leito derradeiro, em que descansas dessa longa vida, aqui venho e virei, pobre querida, trazer-te o coração do companheiro”. Depois consegui ainda ouvir mais algumas palavras: “Trago-te flores, restos arrancados da terra, que nos viu passar unidos e, ora mortos, nos deixa e separados.” Ao fim, como vencido, homenageia sua amada com esse brinde final: “Que eu, se tenho nos olhos malferidos pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos e vividos.”  Não me contive: entreguei-me a copioso pranto, enquanto a figura solitária e digna do escritor se embrenhava por entre as tumbas vetustas naquela manhã fria da cidade que ele tanto amou . Certamente tomaria um tílburi, que o levaria à casa do Cosme Velho.
            Na sexta-feira, o sol derramava-se pródigo sobre nossa querida Fortaleza. Deitado na minha redinha de corda, dando continuidade à tarefa de reler toda a obra romanesca de Alencar, conforme o combinado com ele antes de minha viagem. Já pela manhã e parte da tarde, findei a leitura de Sonhos d´Ouro. Já engatei Til, passando os olhos por partes periféricas...
            Com o auxílio do Eclesiastes, não será difícil constatar que o mesmo Sol    surgido ontem é o mesmo que surgiu hoje, igualzinho a que surgirá amanhã.
            Se é tão óbvio assim, não importa. Interessa a LUZ. Para mim, a luz que iluminou meu dia e minha noite nessa passagem de ano.

            

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