domingo, 26 de junho de 2016

ACIDENTES DA VAIDADE
                                               Hugo Martins

            A ironia atassalhante, a navalhada cartesiana e a pena que vence a espada são características muito presentes na cultura francesa. É uma marca de sua cultura literária e filosófica, assinalada como tatuagem indelével no espírito das gentes.
            Foi tangido por essa aura de gargalhada universal que os filhos de Voltaire criaram um episódio em que figura Charles de Gaulle. Não o general da resistência, não o militar que disse – dizem - “não ser o Brasil um País sério”, mas o homem na sua sempiterna fragilidade, o homem joguete do destino, o “caniço pensante” no feliz achado de Pascal.
            De Gaulle era tido na conta de seu povo como um sujeito paciente de vaidade doentia, daquelas que salta aos olhos ao mais insensível dos homens. Por isso, o povo  criou a historieta que passo a reproduzir. Pois bem.
            Gravemente doente, de Gaulle chamou a si alguns assessores e ordenou-lhes:
            - Caiam em campo e procurem um lugar digno de receber meu corpo. Após minha morte devo lá ser sepultado, não importa o preço que eu deva pagar.
            Os assessores percorreram toda a cidade de Paris e, depois de vinte dias voltaram e marcaram audiência com o presidente.
            - Pronto, general, o senhor deve ser sepultado no Panteão, ao lado de Lamartine e Victor Hugo.
            O presidente olhou seus assessores e disse peremptoriamente:
            - Não pretendo ser enterrado ao lado de escrevinhadores medíocres. Tratem de arranjar outro lugar que mereça receber meu corpo morto.
            Lá se vão os assessores. Ao cabo de trinta dias, estão de volta e se reúnem com De Gaulle. Este ouve:
            - Presidente, acho que encontramos o lugar que o senhor procura. Imagine: ao lado do grande corso, Napoleão Bonaparte!
            Arrufado, colérico, disse aos gritos:
            - Incompetentes! Então querem que meu sepulcro fique ao lado de um soldadinho qualquer? Tratem de cumprir a tarefa de que lhes incumbi. O tempo urge, e a morte se aproxima.
            Os assessores se entreolharam, cumprimentaram, a medo, seu superior e saíram desarvorados e a se perguntar onde encontrar “o lugar digno” para receber os restos mortais do presidente francês.
            Voltaram ao fim de três meses. Agora estavam confiantes em que o problema estaria resolvido. Cara a cara com chefe francês, argumentaram:
            - Presidente, desta vez na há saída, não há contestação, pois não existe outro lugar melhor do que encontramos. Agora, tem um porém: o senhor deverá pagar a quantia quadruplicada em relação aos lugares anteriores. Disseram a cifra que havia de ser paga.
            De Gaulle perguntou:
            - Onde fica o tal lugar?
            Os assessores sorriram, aproximaram-se e quase gritaram em uníssono:
            - O Santo Sepulcro, general...
            Charles de Gaulle sorriu, coçou o queixo, caiu em longa meditação, fez um muxoxo, olhou para os assessores e acrescentou interrogativo:
            - Valerá a pena pagar tanto dinheiro por apenas três dias?


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