SORVETE E OUTROS BICHOS
Hugo Martins
Na catedral de consumo, senhor bem apessoado, roupa limpa, unhas feitas, olhar matreiro saboreia o sorvete de um real, comprado num dos quiosques comuns ao shopping center.
Dá sucessivas mordidas e lambidelas no cone da guloseima e diz, como se pretendesse que a jovem vendedora ouvisse; “ eu avisei; ninguém me engana”. Dizia isso e olhava marotamente para a jovem do outro lado do balcão. Esta, como orientada, nada dizia, continuava sua faina. Discutir com o cliente pode motivar ação judicial e demissão. Há clientes que confiam nisso. O receptáculo do sorvete ia chegando ao fim e aquele senhor com ares de peralvilho experimentado repetia a cantilena de que ele avisara e de que ninguém o enganaria. Parece que havia ele pedido sorvete com sabor baunilha e, a seu aviso, a vendedora não havia colocado o suficiente da essência. O senhor parecia ter razão, afinal nas relações de consumo o respeito entre o que vende e o que compra deve ser mútuo. Sim, desde que tivesse demonstrado seu direito antes de roer sorvete e casca quase até o fim. Agiu como alguém que, num restaurante, pede um prato, come a se fartar e, dolosamente, coloca nele um fio de cabelo. Isso cheira a canalhismo, tanto de um como de outro dos pilantras. Tão reprovável quanto o pai que mente ao filho, quando o filho que se gaba de haver conquistado boas notas na escola à custa de “pescas” e “colas.” Tão lamentável quanto os que se enganam a si mesmo, pois, sem o querer, traem também os outros.
Não interessa a dimensão do pecadilho ou do pecadão, pois, conforme a sabedoria popular, quem furta um tostão furta um milhão. Quem age inescrupulosamente nas pequenas coisas fá-lo também nas grandes.
Talvez aquele senhor avaliasse o quanto era ele ladino o bastante para passar a perna nos outros. É provável que pensasse como o político pelintra, que não regateia talento para engabelar a boa-fé de eleitores, ou semelhante ao legislador inescrupuloso que não mede esforços para aprovar, em conluio com os da mesma laia, leis iníquas e contrárias aos interesses populares.
Afinal o senhor conquistou o segundo sorvete. Que deu o que falar. Uma senhora, testemunha daquela façanha, comentou que aquele acontecimento lhe mexera na consciência e lhe causara náuseas. Outro apreciador de sorvete ali postado disse estar faltando no País capacidade de nausear-se. Aduziu ser necessário que mais pessoas se nauseiem para que as consciências passem por um processo de assepsia pedagógica e tomem seus sorvetes sem a necessidade de causar náuseas nos outros.
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