terça-feira, 21 de junho de 2016

O AMOR É ETERNO 
Hugo Martins
Dormi bem, mas passei a noite sonhando com ela. Sábado, manhã ensolarada, muito calor. Aula de língua italiana: condizionale, imperfetto, passato prossimo, i pronomi diretti, i pronomi relativi, via della grammatica, ma non mi dire, buon viaggio... Final de aula. Ligação telefônica. Pedir táxi. Percorro o corredor sujo e encardido do pátio da faculdade, sinto a náusea sartriana, e eu pensando nela. É amor que vale a pena: está à minha espera com toda a fidelidade, sem rebuços, paciente, sem contradições, sem me falar em promessas e planos. Gosto de seu jeito. Se escorrega em mentiras, pois costuma dizê-las com freqüência, embora, nesses momentos, esconda-se no jogo de palavras e ensaie peripécias retóricas para me nocautear com seus argumentos quase que irrefutáveis, meus olhos não impõem a ela outra roupagem diversa daquela da condição humana. Aceito-a com suas contradições e respeito sua condição de ser livre. Ninguém tem o direito nem o condão de impor mudanças a ninguém. Ela já tentou fazer isso inumeráveis vezes, mas encontra minha renitência na minha condição de também ser livre. Por isso, embora pareça que não pretenda me impor mudanças, com seus caprichos e seus arroubos mandões, sempre de mim se aproxima, sorrateiramente, e vai soltando a linha de seu novelo de argumentos e acaba por se impor à minha vontade. Não com mentiras lesivas às minhas expectativas, mas com a mentira carinhosa, benéfica, que torna o mundo mais lírico, mais suportável. Rendo-me a ela e deixo-me levar pelo acalanto do vaivém de seus buliçosos braços e pelos sussurros amorosos que não cansa de me cochichar, travessamente, nos ouvidos. Nesses ensaios, de tênue e delicada sensualidade, mergulho sem medo, sei haver ali verdades imorredouras, cujas muralhas servem de anteparo ao indevido ingresso das mentiras convencionais do dia a dia. Saio desse estonteante devaneio. O táxi estacionara em frente ao prédio do apartamento em que moro.
Subo as escadas. O coração bate regularmente. Na expectativa de reencontrá-la, enfio a chave na fechadura da porta da frente e empurro levemente. Não vejo ninguém. Leve decepção se estampa na minha alma. Começo a entretecer projeções (pasto para psicólogos direcionarem a vida de sicranos e beltranos). Faço silêncio, baixo a cabeça e desconfio de que minha autoconfiança está a querer me abandonar. Sorvo fundamente uma golfada de ar, empurro a folha da porta e giro a chave. Viro-me. Ela está a poucos passos de mim, fitando-me com olhos serenos e sinceros como a me dizer que ela nunca mudou, que não pretende me mudar, pois somos o que somos. Pego de suas mãos. Abraço-a e levo-a para uma rede de corda, que fica na área e me serve de aconchego para jogos amorosos, coisa que, com ela, pratico todo dia. Antes, olho-a longamente. Está vestindo roupa grave, salpicada, aqui e ali, por discretas estampas. Enquanto caminhamos sem pressa para a rede, apalpo seu corpo rígido. Sem despi-la, abro todos os seus membros (são vários) e nela me introduzo num mergulho gozoso e interminável. Saio da rede. Ela nos meus braços. Aperto-a de encontro ao peito. Estendo-a sobre a superfície plana do birô. É minha fêmea, meu tudo, minha amiga sincera, independente e desnuda da carapaça dos ouriços. Entrega-se gratuitamente e cobra de mim a mesma doação incondicional. Abandonado nos seus braços, viajo, choro, dou boas risadas, conheço lugares e pessoas interessantes, sobretudo às avessas a gratuitas futilidades. Aprendo com ela, amo-a sem medo, e, sem ela, para mim, é quase impossível viver. É discreta, não leva ao conhecimento de terceiros nossa vida pessoal, tampouco joga aos apetites de aves daninhas nossas intimidades. Não. É uma dama, é discrição, é pura classe, é refinamento. Por isso, grito aos quatro ventos, sem titubear e sem medo de ser ridículo como costuma ocorrer com os amantes eternamente apaixonados: EU TE AMO, LITERATURA! Simplesmente. E complemento: I love you, je t´aime. Io ti amo!!

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