CONVERSA DE MESA DE BAR
Hugo Martins
Tarde amarela de um domingo nem
alegre nem melancólico. Sol pródigo, muito calor, e todos doidos para tomar uma
bem geladinha. Éramos quatro em volta da mesa. Todos abertos a prestar
homenagem a Dionísio, mas sem séquito de bacantes. O garçom, ao avistar o
grupelho, foi logo trazendo uma garrafa de cerveja gelada, que ia derramando,
fagueiro, no copo de cada um. O líquido descia pelas goelas ávidas como o
néctar servido aos deuses do Olimpo. A ambrosia resumia-se a um pratarraz de
arrumadinho, enfeitado por uma porção de tripa de porco torrada. Gostoso além
da conta. Nada de coisa sofisticada. Isso fica para os espíritos mais
exigentes, educados no refinamento das etiquetas... A indumentária também era
própria para aquele ágape dominical, promovido sem nenhum motivo, a não ser para
a celebração gratuita do existir. Estávamos todos à vontade: roupas não
domingueiras, chinelas de arrasto e camisas de malha. A sofisticação dos bem
nascidos ali não tinha entrada...
Súbito, acordes melancólicos saíam do
violão seresteiro, e as canções, sobretudo as líricas e as bem vazadas em
português castiço, espalhavam-se no ar da cidade, que começava a receber a
mortalha negra da noite, que encobria todos os mortais. Algumas músicas famosas
e imortais vieram à baila: A DEUSA DA MINHA RUA, CHÃO DE ESTRELAS, ONTEM AO
LUAR, SERTANEJA... O que daqui destoasse ia para a lata do lixo... Não é
questão de preconceito, mas, antes de tudo, respeito à língua portuguesa e ao
ouvido dos outros, cujos tímpanos não devem ser desvirginados impunemente... O
fato é que as canções se iam sucedendo e não se percebia que a noite avançava
em seus passos imperceptíveis... Como em toda mesa de bar, em que se joga,
prodigamente, conversa fora, partiu um questionamento. Nada sobre a economia do
país ou o descaramento dos banqueiros; tampouco se discutia se Messi era melhor
que Pelé... Não, meus amigos, a questão era Deus. Logo, logo, assumi posição
silenciosa por achar tal assunto muito perigoso, pois até guerras provocou, sem
contar os rios de sangue que já encharcaram tantos campos de guerra em face das
divergências humanas sobre aquela divindade.
Tentei tirar o corpo de banda e não
emitir qualquer juízo de valor. O interlocutor, porém, não arredava o pé e
queria porque queria que este pobre ignorante se manifestasse sobre o assunto.
Em primeiro lugar, quis eu saber por que era tão importante se debater sobre o
assunto e por que não deixar Deus em paz. Na realidade acreditar ou não
acreditar em Deus parece mais importante que sua própria imanência. Ora, a
Igreja Católica teve papel fundamental em pintar um Deus castigador e
vingativo, que pune todo aquele que não pautar seu comportamento por Sua
Palavra. Quem ouviu isso de quem? Platão? Aristóteles? Santo Agostinho? Santo
Tomás de Aquino? Na realidade, nenhum desses pensadores ouviu aquilo, mas
certamente pensaram sobre a importância do transcendental na vida do homem...
Não vamos trazer nada disso à baila, é desnecessário. O que há mesmo é medo, é
a incerteza dos nossos destinos, é o fator tradição cultural, impingindo em cada
um de nós a necessidade de eleger um sustentáculo em face dos nossos anseios,
incertezas e covardia.
Se Deus é, como diz o jargão teológico,
Suma Bondade, Onipotência, Onisciência, cairia Ele em contradição, caso se
travestisse de juiz parcial, pois daquelas virtudes só pode imanar uma coisa: o
perdão... Aí entra a história do conceito de pecado, oriunda do pensamento
judaico-cristão. Quem peca mais? O sujeito que surrupia uma lata de leite para
alimentar a prole faminta, ou o político pilantra que se banqueteia com as
verbas públicas, retiradas da merenda escolar para construir palacetes e
empreender viagens de recreio com toda a família? Quem peca mais? O pequeno delinquente,
vítima de uma sociedade perversa e egoísta, ou o comerciante inescrupuloso, que
não se envergonha de, por exemplo, vender mercadoria falseada no peso ou de
negacear o troco ao cliente por julgar que dois centavos que em sua caixa ficam
são coisa sem valor? Fica difícil compreender a ideia de pecado, pois os mesmos
que a conceituam são, de regra, os mais legítimos pecadores. É só olhar para os
modernos vendilhões do templo, dos que mercadejam a Palavra, os que,
aproveitando datas e eventos, envidam todo esforço para praticar a simonia.
A questão se foi estendendo. Já se
haviam consumido vinte e duas garrafas de cerveja. Assunto de tal importância
não ficava apropriado como tema para discussões inúteis. Deixemos a coisa para
filósofos e teólogos. Aliás, discutir e pensar o fenômeno religioso sem um
mínimo conhecimento da Filosofia é jogar ao vento conceitos tomados de
empréstimo a padres, pastores, rabinos e vendedores de ilusões pela"
máquina de fazer doido", que não regateiam discursos gritados para
persuadir os incautos de que, dependendo da maior ou menor abertura da bolsa,
mais próximo chegarão aos céus...
Meninos, eram vinte e duas horas
quando deixamos a mesa. Sóbrios, "mas puxando fogo", deixamos a
questão de lado. Já existe uma gama muito grande de igrejinhas e grupelhos a
vomitar toda espécie de verdades sobre o assunto Deus. Deixemos a eles a
tarefa. Cada conceito, cada verdade, porém, custará uma parcela de sua fortuna,
de regra, conquistada com esforço, perseverança, aplicação e trabalho. Pode ser
que você encontre ali a salvação que está dentro de você mesmo.
Salvação de quê e de quem, mesmo?
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