SAUDADE
Hugo Martins
Os
sinos badalavam em repiques contínuos, a chamar os fiéis para a missa. De vez
em quando, minha mãe nos advertia: essa é a segunda chamada. O menino punha as
calças de suspensórios, enfiava a camisinha de riscado por entre o cós, calçava
as apragatas de rabicho e metia o pé na carreira rumo à igreja. Esfalfado,
entrava pela porta lateral e se sentava num batente frio da escadinha de três
degraus que volteava o altar. Os sinos tocavam a última chamada... Dali, ele via mais de perto a entrada do padre
e seus acólitos, todos paramentados. Também se inebriava com o coro de vozes e
a música do órgão. Vinham do alto, e o menino não atinava de onde partiam
exatamente aquele canto e aquela música harmoniosos, cujo pulsar parecia
convidar todos à meditação e à contrição.
O
padre e os coroinhas ficavam de costa para a assistência. A missa era celebrada
numa língua estranha: o padre dizia algo e seus auxiliares respondiam ou confirmavam.
Os fiéis ora se levantavam, ora se sentavam ou se ajoelhavam. Nunca entendeu o
menino aquele senta-e-levanta. Só mais tarde é que veio a saber que a língua
ali utilizada era o latim. Lembra ele de
uma sentença que o padre pronunciava: Dominus
vobiscum! (O Senhor esteja convosco). A meninada traduzia: Deus te belisque!!
Quanta ao senta-e-levanta era um mero ritual.
Além
da música, muito lhe agradava ouvir o sermão do padre. Vezes, adquiria tom
festivo; vezes outras, assumia tom admoestatório. Costumava o padre apodar as
moçoilas muito dadas a danças, sobretudo em tempos carnavalescos, de pequenas
Salomés. Ao exprobrar a dissolução dos costumes da pequena cidade, o vigário se
esgoelava e soltava cobras e lagartas contra aqueles que desejavam, a seu aviso,
transformar aquela comunidade numa Sodoma ou Gomorra! As intenções do padre
eram louváveis e ele era ouvido...
Àquela
época, sólida era a formação que os padre traziam do seminário. Daí a férrea
fundamentação de seus discursos, a segurança com que eram proferidos e a
sensação de que eram embebidos em caudalosa Filosofia e em refletida Teologia.
Afora a cultura humanística com que eram instilados. Nada era dito em vão...
Hoje,
quando o menino vai à missa, de regra, missa de sétimo dia ou de casamento,
sente saudades daqueles tempos de antanho. O padre mais parece um animador de
auditório. Os sermões são desgraciosos; o coro, desenxabido; e as músicas soam
com um falso tom de jovialidade.
Se,
em outros tempos, o padre se locomovia, no lombo de um cavalo, por até duas
léguas de distância de sua paróquia para levar uma extrema-unção ou rezar uma
missa de mortos sem esperar receber nada em troca, pois fazia isso de ofício;
os padres dos tempos de hoje, quando chamados a exercer o seu mister, consultam
sua agenda e procedem à contabilidade do que vão perceber pecuniariamente
durante aquele dia. Uma ocasião, o menino viu um padre modernoso cobrar a
quantia de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta) reais para celebrar uma missa de
corpo presente num dos cemitérios da cidade. Além disso, cobrou o pagamento da
tarifa do táxi e disse ao devedor que tratasse de resolver logo a coisa que ele
tinha outro compromisso. Parece que iria celebrar outra missa nos mesmos
moldes. Pura caridade...
Em
outros tempos, no decorrer da celebração de uma missa, uma irmã de caridade
passava, de fila em fila, trazendo nas mãos uma vara comprida, de cuja ponta
pendia um saquete de pano ordinário, em que os fiéis, se o quisessem,
depositavam a espórtula que desejassem... Não havia obrigação de pagamento de
dízimo ou coisa que o valha. Hoje, se a Igreja Católica recorre a discurso
suasório a fim de convencer os fiéis de que todos têm o sagrado dever de pagar
o dízimo, não é por zelo, mas porque não quer ficar atrás das igrejas de
inspiração luterana. Não sabe o menino por que, mas que isso cheira a
indulgência, isso cheira!! No seu tempo
não havia essa coisa de pagar dízimos.
É
tudo muito estranho. O menino passou, no dia 13 de maio, em frente à Igreja de
Fátima. Um ror de gente formigava pela praça ou embaixo de barracas, adrede
preparadas. Não sabe o menino se propagavam a fé, ou se faziam as vezes dos
vendilhões do tempo... Viam-se amontoados, às centenas, imagens esculpidas,
imagens pintadas, terços, flores, bentinhos, tudo sendo apregoado pela fala
cristã daquelas pessoas piedosas. Se o menino fosse grande, diria que aquilo
não passava de comércio com as coisas sacras, que, para o bom entendedor, não
passa de simonia. Também o menino não estranharia se o Cristo ali surgisse de
repente e, de chicote em punho, lanhasse as costas daqueles mercadores e dali
os expulsasse.
“Où sont les neiges d´antant?” (Onde
estão as neves de antanho?) - pergunta o coração aflito do menino...
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