quarta-feira, 22 de junho de 2016

CHAPEUZINHO OU LOLITA?
Hugo Martins
Dois entes semelhantes, dois personagens que se equivalem. Chapeuzinho veio primeiro; Lolita, muito tempo depois. Perrault é francês; Nabokov, russo. O tema é o mesmo. Lolita causou frisson na hipocrisia pequeno-burguesa; Chapeuzinho encantou e continua encantando crianças de todo o mundo. Mas Chapeuzinho, embora tendo o mesmo ar falsamente ingênuo de Lolita, é tão luxurienta quanto esta, explicitamente, provoca o Lobo tanto quanto a adolescente Lolita provocava o professor. Chapeuzinho foi advertida dos perigos do mundo e do bicho homem. No entanto desprezou os conselhos da mãe e se aventurou, cantando aquela musiquinha, que se constituía num sonoro apelo à libido do velho Lobo comedor de vovós. Grifemos alguns termos e expressões da musiquinha: “Pela estrada afora eu vou bem sozinha , vou deixar doces para vovozinha; ela mora longe e o caminho é deserto e o lobo mau anda aqui por perto. Quer dizer: a menininha sabia o que queria. Tanto é que o Lobo mau entendeu perfeitamente a mensagem e fez o contraponto: “Eu sou o Lobo mau, Lobo mau, Lobo mau e pego as criancinhas pra fazer mingau. É difícil conceber fazer mingau com criancinhas. A leitura mais honesta seria ver, nesse passo, o desejo do Lobo em injetar mingau na Chapeuzinho. Esta queria com todo gosto. Só não permitiu, depois, porque a Vovó já conquistara o Lobo há tempos, tanto é que o felino de bico comprido (huuuuummmmmmm) estava dentro da Vovó. Aquele caçador (a moral vigente)) estragou os planos de Chapeuzinho evitando que o Lobo também a comesse... Pobre Chapeuzinho. A literatura tens seus encantos...

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