terça-feira, 28 de junho de 2016

COMO DEFINIR O QUE SÓ SEI SENTIR?
                                                                Hugo Martins
Como fazer, como colocar no papel? Lembrei-me de Catulo da Paixão Cearense e da indagação supra na canção Ontem ao Luar. É isso: como definir saudade se só é possível senti-la, cada um a seu modo?
Quando estou caminhando, não importa onde, nem por onde, nem pra onde, as idéias me assediam e obrigam-me a que eu as registre quando chegado a casa. Estacar em público e anotá-las é temerário, você pode ser considerado um alienado ou ser, de súbito, assaltado por algum sujeito desprovido de espírito natalino. Onde já se viu? O sujeito empunhando uma caneta na era dos celulares, iPads e Ifodas... Bom, continuo ainda muito preso às saudades do lápis, da caneta e do convívio com os livros. Estes ainda vão provocar muitas saudades, pois estão caindo no esquecimento e no desuso, dando lugar á recepção das notícias do mundo pelos meios audiovisuais. Ai de nós! Como definir o que vemos? E o que só sei sentir? Pois bem. Hoje passei pela experiência de, enquanto caminhava, ver imagens presas a um tempo que me fez sentir saudades.
Lá estou eu no murinho de nossa casa, à hora do ocaso. Orquestra de cigarras. Morcegos ziguezagueando. Aboio dolente. Bimbalhar de chocalhos. Mugidos pungentes. Minha solidão e minha curtição, que só eu sabia sentir. Muita saudade...
Pracinha. Pipoqueiro. Vendedor de algodão-doce. Roda viva de meninos. Farfalhar da copa das mangueiras. Folhas secas espalhadas no chão. Lá vinha ela. As perninhas a pedalar com força. Riso estampado nos lábios finos. A cabeleira loura não esvoaçava, estava presa na longa trança em cuja ponta atava-se gracioso lacinho. A mãe a vigiar a filha. Mal desconfiava de que um pertinaz sonhador espreitava aquela doçura de menina. Não virou musa, vestiu-se de sonhos. Em mim, muita saudade.
Lá estou eu no murinho de minha casa, na cidade grande, mas ainda com ar de província. Era fim de tarde. Em frente à casa um gramado, onde a meninada batia “racha”. Ali estou, menino recém-chegado do interior, com ares de matuto, a ouvir o arrastar de automóveis que deslizam numa larga avenida ali perto. Pouco me importa. Interessa-me por olhar a menina de pernas finas, a pular cordas com as amiguinhas. Só tenho olhos para ela, e ela não me olha, não me vê, não me enxerga. Terminado o folguedo, ela entra. Mergulho em silêncio na minha solidão de menino de coração mole. Muita saudade...
Mesa posta. Pedaços de pão num pequeno receptáculo. Cheiro de café. Fim de tarde. Assovio. Aviso do começo do “racha”. Apreensão. Olhar admoestador da mãe. Liberdade condicional. Par ou ímpar. O dono da bola não podia “sobrar”. De regra, não jogava nada, mas tinha a “autoridade de “dono da bola”. Se não fosse escalado, não tinha “pelada”. Noite chegando. Suor. Botas de poeira. Banho. Jantar. Brincadeira de pega-pega. Sete pecados. Quarteirão. Briga de rua. Braço estirado. “quem cuspir aqui é mais macho”. “Tá qui tua mãe, tá qui a tua”. “Quem pisar é mais macho”. E tome porrada e inimizade. Depois de alguns dias, a paz. Não havia tiros. Não havia canivetadas. Só o gosto de ser menino, de ser taxado de “moleque de rua” pelas madamas, que não souberam criar os filhos e os tornaram infelizes. Sentidas saudades daqueles tempos. Muitas...



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