OPINIÃO
Hugo Martins
Hugo Martins
Não existe doença mais danosa que a ignorância e aquilo que alguém chamou analfabetismo funcional (o sujeito lê o signo, lê o sintagma, lê a frase, lê o texto, mas tão só na sua feição gráfica, pois passa batido no que diz respeito ao conteúdo do que lê. Lemos, estarrecido, que um deputado, do alto de suas ferraduras, demonstrou indignação com o ENEM haver incluído frase se Simone de Beauvoir no último exame. O sujeito já começa a dizer bobagem quando diz que a pensadora francesa teria vivido em época longínqua dos tempos modernos. Ora, a mulher de Sartre nasceu e viveu no século vinte, sendo filiada à mesma corrente filosófica do marido, o Existencialismo. Simone publicou vários livros, entre eles, Os Mandarins, Quando o Espiritual Domina, A Velhice, A Cerimônia do Adeus, e o Segundo Sexo. Neste, escrito em dois volumes, a autora examina a condição feminina sob várias perspectivas, entre elas o que é ser mulher, ao tempo em que põe em evidência o discurso histórico entretecido pelo homem para mantê-la no eterno estado de submissão. A frase que provocou a celeuma é a que abre o segundo volume da obra em referência; “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A partir daí, o capítulo se estende por cinquenta e seis páginas, que analisam a condição feminina tão só na infância. O tornar-se mulher nada mais é que o discurso ideológico legitimando “verdades”, impondo estereótipos e criando modelos... Veja-se que, no Brasil, a mulher só se emancipou, juridicamente, em 1964. Até aqui, era considerada pelas leis civis um ser relativamente incapaz, sujeita a várias restrições impostas a maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. Assim, no Brasil, hoje, temos uma mulher diferente daquela. Claro, a História é dinâmica. Não há no texto nenhuma referência a metamorfoses ou preferências sexuais. O texto deve ser lido na sua historicidade. Quanto ao deputado, bem, há de se tornar deputado, cumprir seu dever de legislar e parar de dizer parvoíces. Falar sobre dialética ao deputado é malhar em ferro frio. A tempo: nossas desculpas aos bichos que usam ferraduras...
De parabéns o ENEM por propiciar à juventude oportunidade para pensar com mais agudeza sobre os problemas humanos
De parabéns o ENEM por propiciar à juventude oportunidade para pensar com mais agudeza sobre os problemas humanos
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