domingo, 19 de junho de 2016

VAI COMENDO, RAIMUNDO!
Hugo Martins
Falar em progresso e desenvolvimento tornou-se lugar-comum na boca de político patife e de leitor empedernido de jornais, que, tal um robô bem treinado, sai papagaiando essa inominável verdade.
Ora, neste País perdido, cuja história se inicia com a mentira deslavada de que o tal Cabral descobriu o Brasil, tudo é potoca. Ora, se Colombo encontrou o Continente Americano, e o Brasil se encontra neste... Nada a declarar. Além disso, Capistrano de Abreu sempre defendeu a idéia de que o navegador espanhol Vicente Pinzon, em 1492, já dera com os cascos na cidade de Aracati.
Tudo aqui é mentira... Há uma mentira religiosa, de onde emanam todas as hipocrisias e cinismos deslavados, traduzidos em comportamentos farisaicos em que o menos importante é o próximo; há uma mentira tributária, manifestada no assalto legal que o poder público faz ao bolso do cidadão, sob o pretexto nefando de que, pela mágica da lei, tudo o que fora tirado da bolsa do contribuinte voltará a este em forma de serviço. Educação? Necas. Saúde? Necas. Políticas Sociais? Necas de pitibiriba! Há uma mentira pedagógica. Há pessoas que adoram o magistério, mas fogem da sala de aula como o tinhoso foge da cruz. Em determinados estabelecimentos da rede pública de ensino temos visto muito professor deslocado. Intelectuais da mais fina flor, pelo menos eles assim se vêem, no entanto, se lhes for pedido escrever um “O” com uma quenga, terminam por desenhar um quadrilátero, pois nada lêem a não ser as noticiazinhas sobre futebol, politicalha e outros assuntos do mesmo jaez. Seriam mais honestos se fossem vender banana na feira, atividade mais lucrativa e mais verdadeira que obter título acadêmicos como se estes fossem bônus. Quer dizer, conhecimento de mundo não importa. Ao títere vale o dar sua aulinha minguada sem nenhum mergulho mais profundo no devir histórico. Há muitas outras mentirinhas. Deixo de enfileirá-las não só porque já bem as conhecemos mas também porque estão visíveis no cotidiano...Não devemos esquecer a mentirinha oficial do “salve-se quem puder” no magistério: por exemplo: o sujeito tem formação acadêmica em filosofia e vai cursar pós-graduação em Geografia... Durma-se com um barulho desse. Não sei se estudar Geografia tem muito a ver com isso. Talvez seja eu ignorante nessas coisas pedagógicas, mas que causa espanto, lá isso causa. Quer dizer: não mais se exige competência, mas titulação oca, que nada diz respeito à formação do mestrando ou doutorando. Interessa ao poder público seja o professor portador de títulos. Não importa a natureza. Aliás, por esse prisma, estou aguardando mestrado em corte e costura para, depois, perseguir o doutoramento em arte culinária. Perguntar-me-ão o porquê disso, se tenho formação em belas-letras e letras jurídicas. Ora, é o tal salve-se quem puder, é a questão das essências e das aparências. Ou como diria um personagem de Chico Anísio: “eu quero é me arrumar.”
Por isso, progresso e desenvolvimento não passam de palavras proferidas ao vento, com cheiro de agrado, mas longe do seu significado mais essencial. Pouco adianta essa tal tecnologia, se não há progresso e desenvolvimento humano nas relações dos homens entre si. Pouco adianta a presença dos doutos, que, sem consciência, não fazem ciência. A propósito, quando o deus Apolo disse ser Sócrates o mais sábio dos homens, referia-se à humildade do pensador que dizia ser o conhecimento a maior virtude do homem, mas, (que divino paradoxo!!), o homem não pode alcançá-lo. Em face disso, o filósofo, mestre de Platão, não aceitava que alguém o chamasse sófos (sábio), preferia ser conhecido como filósofos (aquele que ama, convive com e tem profunda amizade pela sabedoria). Em outras palavras, não bastam mestres e doutores, mas, sobretudo, honestidade e estudo, muito estudo, diuturnamente. Desse modo, cada qual no seu mister, instilará no outro alguma dosagem de humanismo para que o mundo se torne lugar mais suportável. Estamos precisando de homens e não de robôs; estamos precisando de almas, não de engrenagens de fábricas e indústrias. Não há progresso, não há falar em desenvolvimento se não se investe na alma humana.

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