terça-feira, 28 de junho de 2016

ARS LONGA, VITA BREVIS
                                                           Hugo Martins

Há uma doença rara que medicina nenhuma no mundo consegue curar. Dela são acometidos os grandes escritores, sobretudo aqueles viciados em mordente perfeccionismo. Não existe um nome científico para designá-la. Quem mais se aproximou, na tentativa de conceituá-la, foi o escritor francês Gustave Flaubert, que a concebeu na locução “angústia da forma.”  Surge ela do embate que o escritor trava consigo mesmo, na encarniçada luta entre o que deseja exprimir e a maneira como fazer, recorrendo aos meios de expressão disponíveis na linguagem. O poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é useiro e vezeiro em escrever versos para que, literariamente, compreendamos o que é a coisa. Ora, há situações na vida que, não podendo o homem exprimir por palavras, recorre, nem que não queira, à eloquência do silêncio, ao desespero do choro e do riso, que, ao fim e ao cabo, são a mesma coisa... Na ânsia de exprimir e ciente de que a linguagem é impotente para traduzir determinados estado d´alma, o poeta se dá por vencido e convencido de que há o inexprimível, o indizível, o inefável, isto é, aquilo que está fervilhando nas entranhas do pensamento não vem, satisfatoriamente, à tona, porque a linguagem, na visão dos artífices da palavra, é incapaz, é impotente, é fria ,não dispõe, repitamos, de instrumental para pôr às claras o que se encontra no mais recôndito da alma. Li esse trecho do soneto INANIA VERBA, que transcrevo para ilustrar o que se diz. Numa tradução livre daquela locução latina, temos que, mais ou menos, palavras frágeis, impotentes. Eis o trecho. Aspeio.
“Ah! Quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas desfeito em lodo, o que te deslumbrava,..”

Coisa linda...  Cabe ao leitor, daqui por diante, verificar as conotações, sobretudo nas palavras “ardes”, “sangras”, “cruz”, “lodo”. O poeta, escravo da expressão, ensaia exprimir o que lhe vai na alma, experimentando, profundo sofrimento. Há um momento até que ele se rende á ilusão de que conseguiu seu intento. No entanto aquele deslumbramento se esboroa, transforma-se em lama... Mesmo que o poeta continue sua luta, sempre vai encontrar os obstáculos provindos da impotência da linguagem.
O restante do texto (mais um quarteto e dois tercetos) continua no mesmo tom.
Lembrei-me de que o poeta parnasiano Raimundo Corrêa (essa é a grafia) só deu edição definitiva ao seu soneto Banzo ao fim de quatorze anos... Pouca gente acredita em que a criação literária é um suplício eterno, pois toda a literatura, a grande literatura, provém das dores do mundo. Compreender e exprimir essas constituem, de per si, ingente sofrimento.
Voilà...





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