ARS
LONGA, VITA BREVIS
Hugo
Martins
Há uma doença rara que
medicina nenhuma no mundo consegue curar. Dela são acometidos os grandes
escritores, sobretudo aqueles viciados em mordente perfeccionismo. Não existe
um nome científico para designá-la. Quem mais se aproximou, na tentativa de conceituá-la,
foi o escritor francês Gustave Flaubert, que a concebeu na locução “angústia da
forma.” Surge ela do embate que o
escritor trava consigo mesmo, na encarniçada luta entre o que deseja exprimir e
a maneira como fazer, recorrendo aos meios de expressão disponíveis na linguagem.
O poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é useiro e vezeiro em
escrever versos para que, literariamente, compreendamos o que é a coisa. Ora,
há situações na vida que, não podendo o homem exprimir por palavras, recorre,
nem que não queira, à eloquência do silêncio, ao desespero do choro e do riso,
que, ao fim e ao cabo, são a mesma coisa... Na ânsia de exprimir e ciente de
que a linguagem é impotente para traduzir determinados estado d´alma, o poeta
se dá por vencido e convencido de que há o inexprimível, o indizível, o
inefável, isto é, aquilo que está fervilhando nas entranhas do pensamento não
vem, satisfatoriamente, à tona, porque a linguagem, na visão dos artífices da
palavra, é incapaz, é impotente, é fria ,não dispõe, repitamos, de instrumental
para pôr às claras o que se encontra no mais recôndito da alma. Li esse trecho
do soneto INANIA VERBA, que transcrevo para ilustrar o que se diz. Numa
tradução livre daquela locução latina, temos que, mais ou menos, palavras
frágeis, impotentes. Eis o trecho. Aspeio.
“Ah! Quem há de exprimir,
alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o
que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada
à tua cruz, e, em breve,
Olhas desfeito em lodo, o
que te deslumbrava,..”
Coisa linda... Cabe ao leitor, daqui por diante, verificar
as conotações, sobretudo nas palavras “ardes”, “sangras”, “cruz”, “lodo”. O
poeta, escravo da expressão, ensaia exprimir o que lhe vai na alma,
experimentando, profundo sofrimento. Há um momento até que ele se rende á ilusão
de que conseguiu seu intento. No entanto aquele deslumbramento se esboroa,
transforma-se em lama... Mesmo que o poeta continue sua luta, sempre vai
encontrar os obstáculos provindos da impotência da linguagem.
O restante do texto (mais
um quarteto e dois tercetos) continua no mesmo tom.
Lembrei-me de que o poeta
parnasiano Raimundo Corrêa (essa é a grafia) só deu edição definitiva ao seu
soneto Banzo ao fim de quatorze anos... Pouca gente acredita em que a criação
literária é um suplício eterno, pois toda a literatura, a grande literatura,
provém das dores do mundo. Compreender e exprimir essas constituem, de per si,
ingente sofrimento.
Voilà...
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