quarta-feira, 29 de junho de 2016

DIKÉ ET JUSTITIA
                                         Hugo Martins

            Em meio aos livros, à minha frente, olho-a e perscruto-lhe os semas. É uma estatuazinha de gesso. Sobre os olhos uma venda; na mão direita, uma espada; na esquerda, alçada além dos ombros, no exato nível da cabeça, uma balança, cujas bandejas acham-se em perfeito equilíbrio Coisas do espírito engenhoso dos gregos. É Thêmis, deusa da justiça, que costumava ser invocada pelos magistrados a fim de que a aplicação da lei ao caso concreto atingisse o fim colimado: por óbvio, o dar a cada um o que é seu.
            A venda nos olhos evoca a imparcialidade desejável e ínsita a todo julgador. A balança lembra a equidade com que as partes e suas pretensões devem ser tratadas pelo magistrado. Por fim, a espada aponta para a coercibilidade, possibilidade de recorrência à força a fim de que o recalcitrante tenha seu comportamento ajustado à norma em seu dever-ser. Assim, uma sentença é uma norma, que, transitada em julgado, deve ser cumprida independente da vontade do vencido.
            Ora, há mais de duas décadas, os professores das universidades do Estado do Ceará tiveram ganho de causa na última instância do Poder Judiciário. No outro polo da ação, está o estado do Ceará. Confirmada pelo STF a constitucionalidade da lei, combatida pelo ente público, só cabia a este cumprir os efeitos da sentença. Qual o quê! A coisa vem se arrastando por todo esse lapso temporal não porque o Estado apresente razões para sustar o andamento do feito, mas porque o cumprimento da decisão é tratado com indiferença e imoral improbidade por seus procuradores, bem como pela inércia do temor, não se sabe se reverencial ou fruto de vergonhosa pusilaminidade, coisa que instaura a insegurança jurídica, humilha o jurisdicionado e faz crer não existirem juízes no país...
            Assim, não importa o mergulho exegético para se extrair do que se embuça no signo semiológico aqui apresentado se as fumaças, não só do bom direito, mas da prepotência insultante continuarem a obnubilar as consciências de quem pensa ser senhor absoluto das coisas do Estado, tripudiando sobre direito líquidos, certos e indiscutíveis...
            Como fecho, nesse contexto, que se rasgue a venda da deusa, quebrem-lhe a espada e chute-se-lhe a balança
            Reza a parêmia: Dormientibus non sucurrit ius (O Direito não socorre os que dormem). Não há discordar. Só que nós estamos, de há muito, com os olhos bem abertos, mas temerosos de que as manobras do ente público possam fechar os olhos dos que devem aplicar as leis por alguma espécie de narcotizante subliminar e indescritível. Exemplos já tivemos: a ingerência de “relatores”, que nada têm a ver com a causa. Enquanto ela se arrasta, ficaremos atentos, sobretudo pela pertinência e coragem de um pequeno grupo capitaneado pelo amigo Gilberto Telmo. Não fosse isso, estaríamos a ver navios, ante a indiferença bovina do nosso malfadado sindicato, que nada informa, nada diz, nada acrescenta...
            Por isso, deve-se espraiar toda reverência a esse grupo de abnegados.
            Amicus ex corde. Vale!



            

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