terça-feira, 28 de junho de 2016

APRENDENDO COM A HISTÓRIA
                                                                 Hugo Martins

 Ultimei a leitura dos dois primeiros volumes da obra Getúlio, de Lira Neto. O primeiro volume abarca o período transcorrido entre os anos de 1882, ano de nascimento de Getúlio Dornelles Vargas, e  o ano de 1930, quando o homem de São Borja se alça ao poder, depondo o então presidente Washington Luís; o segundo volume, trata dos estirados quinze anos em que o ditador se mantém no poder, promulga a constituição de 1934 e, logo depois de três anos, outorga a de 1937, a Polaca, redigida por uma só mão, a de Francisco Campos, o doutor Ciência, apelido que se lhe aplicou devido a vasta erudição de que era detentor. Nesse período, de governo provisório, Vargas, embora governando o país com mão de ferro, recorrendo a todo tipo de arbitrariedades inomináveis, levou a efeito também algumas mudanças que ainda hoje se refletem no direito eleitoral e, sobremaneira, no direito do trabalho. Em 1945, foi deposto por seus aliados e amigos, aliás mui amigos, o general Goes Monteiro e o general Eurico Gaspar Dutra, que irá disputar o maior cargo público do país com o brigadeiro Eduardo Gomes. O terceiro volume irá tratar exatamente do exílio de Getúlio em sua fazenda em São Borja até o ano em que se candidata à presidência da República e volta ao poder, agora pela vontade das urnas.
Sempre abri os volumes referidos com uma alegria prévia de alma, pois a obra é encantadoramente bela na sua fidelidade aos fatos históricos, e o estilo jornalístico-literário de Lira Neto age no leitor como um vinho de cujos efeitos afasta as chatices do mundo e instaura uma embriaguez sóbria, contínua, agradável e sem ressaca. Nas sessenta primeiras páginas, encontrei muito humor: um Getúlio afastado do poder, armando arapucas para sua volta e, paradoxalmente, mesmo tendo sido apeado do poder por Dutra, bastou sair de sua pena um ou dois manifestos, para que Eduardo Gomes, o brigadeiro, sofresse fragorosa derrota ante um Dutra sem expressividade política, oratória sofrível e nenhuma experiência com os meandros da política, cujos cordéis são movidos por raposas criadas.
Em meio à narrativa, nessas páginas iniciais, Lira Neto conta a história do “brigadeiro”, a guloseima que grande parte dos brasileiros conhece, mas não sabe a origem. Vou sair e deixar que Lira Neto conte a coisa. Sapeco na passagem um par de aspas. Aí vai.
“ Em contraste com a sensaboria de Dutra, o porte garboso do candidato Eduardo Gomes eletrizava o eleitorado, sobretudo o feminino, que pela primeira vez ia às urnas para votar numa eleição presidencial. “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro”.  Moças e senhoras arrecadavam fundos de campanha vendendo de porta em porta os docinhos esféricos de chocolate com granulado, que por analogia passaram a ser conhecidos em todo o país como “brigadeiros”. As más línguas, contudo, fariam outra espécie de associação a respeito: como Gomes saíra ferido no episódio histórico dos Dezoito do Forte – supostamente atingido nos testículos – o apelido da iguaria constituía, segundo a tradição oral, uma alusão ao fato de ela ser preparada sem  a necessidade de se acrescentar ovos à receita. Numa outra versão, também recorrente, o nome era devido ao fato de o doce ter uma “bolinha” só, assim como o brigadeiro”.   Cultura inútil também é cultura




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